11
Set
09

A questão do Dom

Dia desses eu estava conversando com um engenheiro que em um determinado momento me disse: “Você nasceu com o dom de produzir belas imagens!”

Broto na restinga da Juréia - SP

Esse tipo de colocação sempre me incomoda, pois faz parecer que não há qualquer esforço envolvido no processo fotográfico: Basta receber uma luz divina e apertar o botão…

Na realidade a coisa não funciona bem assim. Boas imagens são invariavelmente filhas do esforço e da repetição. Sem bons conhecimentos de luz, cor, composição, e outras variáveis, além de dominar totalmente um bom equipamento, as boas imagens ficam restritas ao fator sorte. E sorte é uma coisa que não existe.

O “dom” ao qual meu amigo engenheiro se referiu é na verdade uma das muitas predisposições à inteligência aceitas hoje em dia. Até pouco tempo a idéia de inteligência estava intimamente relacionada ao pensamento lógico quantificado em testes de “QI”. Isso excluía da classificação de “inteligente” uma boa parcela da humanidade que veio ao mundo com a predisposição de entender os sons, o movimento, as emoções, as idéias e muitos outros elementos que estão fora da mais pura racionalidade lógica.

Nosso engenheiro, por exemplo, nasceu com o “dom” de entender os números. Mas resolver cálculos com a mesma facilidade com a qual eu descasco uma banana, não o transformou em um ser humano capaz de projetar vigas e misteriosamente fazer com que edifícios imensos parem em pé. Para isso ele teve que estudar e lapidar o seu “dom” para transformá-lo em “inteligência”.

O mesmo princípio é aplicado a qualquer outra forma de inteligência, inclusive aquelas relacionadas a arte e comunicação como é o caso da fotografia.

Se você nasceu com o “dom” de contar histórias através dos seus olhos, é sua missão transformar essa predisposição em uma forma inteligente de se fazer entender. E esse não é um caminho fácil de trilhar.

Artistas muitas vezes são vistos como desajustados ao mundo, mas muitas vezes é o mundo que está desajustado ao artista. Um dos muitos trabalhos da arte é justamente ajustar o mundo.


0 Responses to “A questão do Dom”



  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


Sobre o Autor:

Fotojornalista com trabalhos publicados em alguns dos principais jornais e revistas nacionais, tais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Istoé, entre outros.

Atualmente dirige a Agência Fotográfica Lunapress e também é docente do SENAC lecionando fotografia na unidade Jundiaí.

Colabora com diversos bancos de imagens internacionais com destaque para a iStockphotos e a Getty Image para os quais fornece principalmente imagens sobre a América Latina.

Fotografou para diversos veículos institucionais e é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de fotografia em “hight-speed” adotada pela Faculdade de Engenharia de Minas da USP para registrar o comportamento de partículas em reatores de flotação.

Imagens da América do Sul

Imagens do Brasil


%d bloggers like this: