12
Set
09

Autobiografia dos outros em mim

Quando aprendi que fotografia quer dizer “escrever com luz”, percebi que o primeiro fotógrafo que conheci foi Guimarães Rosa.

Eu queria poder contar histórias usando a poesia da luz e por um tempo tentei fazer isso usando apenas palavras. Mas não bastava. E fui conhecendo outros grandes fotógrafos: Caetano Veloso, Matisse, Antoni Gaudí… um dia, quase que por acidente, uma câmera caiu nas minhas mãos. Me disseram que aquela geringonça era capaz de escrever com luz. Torci o nariz, não quis passar por bocó e ir acreditando assim sem piscar. Riram e me mostraram Bresson. Tá vendo? Fui obrigado a concordar: Não era fácil, mas era possível fotografar usando uma câmera. Comprei o desafio e também uma Zenit russa que fazia plac, plac, plac enquanto escrevia.

Menino na Praça da Sé

Dorothea Lange, Tolstoi, Sebastião Salgado, Plínio Marcos, Chico Buarque… era essa turminha que se embaralhava nos meus olhos enquanto eu tentava escrever com a maquininha russa. Turminha boa, mas algo ainda faltava. Foi aí que entrou o Seu Mário: Ele era um japonês risonho dono de uma quitanda na rua onde eu morava. E foram as bancas de frutas e verduras simetricamente arrumadas por ele naquela quitanda que me contaram que cor não era só a cor não. Cor tinha gosto e também tinha cheiro. Aprendi a diferenciar o sabor do vermelho do cheiro do verde. Cor – e por que não? – contava histórias.

Mas não foi uma aceitação fácil. No mais das vezes eu deixava a cor trancada do lado de fora. Dizia pra ela: “Cor sua besta! Não vê que você tá atrapalhando tudo? Já pensou num Machado de Assis colorido? Vira bagunça! Vai já pro quintal!” Mas a cor aproveitava qualquer frestinha esquecida e quando eu saia pro quintal ela vinha e se escorria no meu olho com sua bagunça saturada. Resolvi dar uma canja pra ver se ela parava de me azucrinar.

Passo Jama na fronteira entre Chile e Argentina

Um dia sentamos em três viventes no alto de uma pedra que dava pra uma cachoeira na Serra da Canastra: Araquém Alcântara, a cor mais eu.  Eu estava todo contente, pois tinha uma máquina de escrever nova (uma Nikon, veja só!) e também tinha feito as pazes com a cor. Araquém se ria e dizia: “Mas será o Benedito? Não tá vendo que essa sua máquina veio com defeito? Falta o retrovisor! Não aprendeu nada com o Guimarães Rosa lá no começo? Pra enxergar lá pras bandas de fora o olho tem que se revirar pra dentro! Senão você enxerga só nas cascas das coisas do mundo!” E a cor – toda vingativa – ria junto com ele.

Desci da pedra e fui procurar quem conhecia as cores de dentro das coisas pra tomar aula. Gabriel Garcia Marquez foi o primeiro que teve paciência comigo. Fernando Pessoa me contou que na matemática das coisas reais um são muitos e o Pedro Martinelli passou pra dizer que um elefante pode ser sutil. O professor Domenico de Masi veio lá das Itálias pra me mostrar a importância de ficar sentado na soleira da porta olhando o trilho das formigas passar, e que se eu duvidasse que fosse perguntar pro poeta Manoel de Barros. Pois eu fui e vi que era verdade. Joseph Campbell botou na lousa que embora infinita a alma tem começo meio e fim e que de posse de tais esclarecimentos que fosse vagabundear pelos labirintos de Picasso. Fui e fiquei tonto.

Saí do labirinto todo zureta e fui me largar na cadeira dum bar pra pedir um gole de ar.  E não é que por um desses acasos pouco casuais da vida no mesmo bar estava o fotojornalista Pedro Viegas? Ele botou reparo no meu colete e viu que eu era da irmandade dos contadores de história que ganha uns trocos fotografando causos pras redações da vida e me chamou pra dividir mesa. Pois sentamos, ele com seu copo de vinho eu com meu copo de ar cheio até a boca. E pedimos porção. Veio Koudelka a dorê e também Nair Benedicto, Juca Martins, Jorge Araújo e Evandro Teixeira, tudo bem temperadinho com caldo de redação.

Viegas percebeu que eu estava um tanto quanto zuretado na minha busca por entender e crescer que disse bem assim: ”Nêgo presta atenção: O melhor lugar pra se crescer é dentro duma semente”. Pensei, pensei e vendo sentido naquela colocação fui morar dentro de uma semente por uns tempos. E os tempos viraram anos. Ficava lá sentado dentro da semente me auto digerindo à moda de Mário de Andrade esperando a luz certa para brotar.

Estrada para Calama - Chile

Passado o tempo que devia passar, num dia feito qualquer outro dia, a luz bateu em meus olhos e segui caminho.  Vi nesse caminho que nunca, mas nunca mesmo se aprende tudo o que há para se aprender. Sempre há que se cheirar o que outros contadores de história estão fotografando por aí pra se entender um pouco melhor a história que estamos contando para nós mesmos.  E tem muito fotógrafo bom por aí, basta prestar atenção: Podem ser tocadores de flauta numa ruela de Cuzco, pode ser a minha tia Sônia que fotografa com idéias e palavras enquanto prepara farofa com banana na moda dos caiçaras. A desenhista Rosana Urbes que constrói imagens com risadas. Tem o Marcelo Greco que me ensina a gramática das coisas de enxergar. Muita gente.

Dia desses mesmo passei em frente a uma porta que tinha uma tabuleta por cima: “Descondicionamento do Olhar”.  Entrei de curioso. Lá dentro tinha um Doutor, por nome Cláudio Feijó que me segurou pelas orelhas e sacudiu tanto a minha cabeça que os pensamentos que estavam arrumadinhos nas gavetas do meu cérebro caíram todos no chão do céu da boca. Aí ele falou: “Deixa misturar tudo que o nome científico pra essa desordem de idéias é criatividade”. E não é que era mesmo? Fiquei me divertindo pegando um pensamento de cá e misturando com uma idéia de lá e puf! Brotava uma coisa nova! Misturei a idéia de cavalo com o conceito de um hipopótamo e vi minha mente fotografar um cavapótamo!  Só eu tinha comigo a imagem de um cavapótamo novinho em folha! O Doutor Cláudio riu da minha satisfação e falou: “Quer mais? Pois vamos lá fora que eu vou te ensinar como se faz pra ver a cor das coisas com os olhos fechados. Cor está no cérebro, não nos olhos e não nas coisas. Por isso você não precisa dos olhos pra enxergar a cor das coisas.” Não é que ele me ensinou mesmo?

Deixar de aprender com os outros sobre a história da gente só mesmo no último segundo da vida da gente. Esse derradeiro instante é reservado pra passar a régua e somar todo o muito pouco que entendemos do mundo. E então ficamos quietinhos. Deve de ser pra não estragar a surpresa pra aqueles que vêm depois!


12 Responses to “Autobiografia dos outros em mim”


  1. 14/09/2009 às 00:01

    Fala Fernando!
    Poxa, muito bacana mesmo o blog, com belas fotos e reflexões muito interessantes sobre nosso ofício. Parabéns de verdade.
    Voltei a atualizar meu blog que estava bem parado, dá uma olhada se puder também http://www.cenasdodia.blogspot.com
    grande abraço

  2. 14/09/2009 às 14:47

    Ai Fernando! Agora me encabulei!
    Tomei a liberdade de arquivar todos os seus comentários e re-editar em uma ordem, fiz um índice primário, coloquei ilustrações suas, tudo com base na super-aula que vc está dando na comunidade de Fotografia. Pensei até em bolar um título (coisa difícil é bolar um título…)
    Agora vc falou que quem sabe role um livro, e me senti uma “ladra” de idéias. kkkkkk

    Se quiser, te envio oq já fiz… se quiser que eu pare de fazer, eu paro. Direito seu.
    De qualquer maneira, obrigada pelas aulas!!

    Ahh!! Tem uma foto sua no orkut que quando vi, a primeira coisa que eu pensei foi no Pequeno Principe…. quando olhei na legenda embaixo, vc cita Antoine de Saint-Exupéry. Heheheh mt bom…

    **PS: tentei escrever esse recado no Orkut, mas ele me bloqueia pq acha que é um spam… rsss

  3. 14/09/2009 às 18:23

    Clarice;

    Tem um livrinho maravilhoso do Exupéry chamado “Terra dos Homens”. Vale a pena conferir!

  4. 17/09/2009 às 10:17

    Oi Fernando, claro que pode acrescentar! Vou colocar o seu link e de outros amigos também no meu blog. Abração e parabéns pelos textos. Estão mesmo muito bons. Tiago

  5. 16/02/2010 às 19:34

    QUE TEXTO MARAVILHOSO!Parabéns =)

  6. 18/02/2010 às 09:51

    Olá Victor! Obrigado pelo comentário e seja bem vindo!

  7. 8 JEAN ASSIS
    05/04/2010 às 17:29

    Exelente espaço….
    Da até uma emplogação, rsrsrs

    Parabêns Fernado… abraços.

  8. 9 Maria helena( Cenac)
    10/07/2010 às 19:23

    Oi Fernando.
    Adorei!
    A cor brotou mesmo!
    Deve ter vindo de Deus diretamente para sua mesa.
    EStacionando em sua alma, com certeza.

    Parabéns!

  9. 11/07/2010 às 13:48

    OI Helena, obrigado! Aula que vem vamos nos divertir botando reparo nas cores do mundo! Até lá!

  10. 11 Maria helena( Cenac)
    30/07/2010 às 20:07

    Oi Fernando
    Parabéns pelo modo como conduziu as aulas do Senac Jundiai.
    Com sua capacidade e muito conhecimento, vc conseguiu ser humilde e igual com todos.
    Com uma enorme vontade de ensinar.
    Um professor cinco estrelas.
    Obrigada.
    maria helena

    • 03/08/2010 às 09:07

      Oi Helena!

      Obrigadíssimo pelo depoimento! Compartilhar com vocês esse universo mágico que é a fotografia é uma coisa que eu fiz de coração. É muito bom saber que consegui corresponder as expectativas de vocês!


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Sobre o Autor:

Fotojornalista com trabalhos publicados em alguns dos principais jornais e revistas nacionais, tais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Istoé, entre outros.

Atualmente dirige a Agência Fotográfica Lunapress e também é docente do SENAC lecionando fotografia na unidade Jundiaí.

Colabora com diversos bancos de imagens internacionais com destaque para a iStockphotos e a Getty Image para os quais fornece principalmente imagens sobre a América Latina.

Fotografou para diversos veículos institucionais e é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de fotografia em “hight-speed” adotada pela Faculdade de Engenharia de Minas da USP para registrar o comportamento de partículas em reatores de flotação.

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