09
Fev
10

O Velho Messias

Messias não tinha exatamente uma idade. Era velho de vivido, pele negra ressecada ao sol cobrindo um corpo magro, austero e um olhar amarelado de quem não quer dizer muita coisa.

 A perna coxa, resultado de um encontro casual com alguma jararaca em suas andanças na lida diária pela restinga, também não era tão coxa assim. Mas se fazia coxa o suficiente para livrar o resto de seu corpo dos trabalhos mais pesados nas plantações de banana.

Por conta disso cabia ao velho Messias tarefas mais amenas: Capinar o terreno atrás da casa onde nós, crianças, brincávamos e tentar nos manter livres do inevitável contato com cobras, aranhas e outros grilos. Cuidava dos cavalos, quando havia cavalos, buscava alguma compra na venda perto dos trilhos do trem… Salgar o peixe ele não salgava, pois achava isso coisa pra mulher.

Alguns prazeres chegavam ao velho pela boca desde sempre: A cachaça com Cambuci, o pirão de peixe, a farinha, a pimenta… Ah a pimenta! Sublime tempero para qualquer coisa, em qualquer tempo. Curtida durante meses num vidro de tampa enferrujada era sempre posta à mesa com toda pompa e cerimônia.

O velho não dizia, talvez por não saber dizer,  mas é certo que algumas coisas chegavam até sua alma. A chuva pesada, trazida pelo vento sudoeste, chicoteava e atravessava a pele nua do seu peito e lavava seu coração. Messias era filho de Iansã, a dona das tempestades e dos trovões.

Mas o que enchia o velho caiçara de prazer era tomar conta da propriedade. Imbuído da autoridade conferida pela velha espingarda passarinheira de cano muito longo e por um estoque de dois ou três cartuchos soltos dentro do bolso, percorria os caminhos da restinga com agilidade impressionante, fazendo faceiro a ronda pelas trilhas e picadas do entorno. Orgulhoso, esquecia que a perna seria coxa, e andava altivo nos informando de sua posição de tempos em tempos com seu outro tesouro: O apito.

E assim dormíamos na casa, tranqüilos e seguros, ao som distante do apito do velho Messias a nos lembrar que a Lei e a Ordem estavam garantidas na restinga. Pelo menos até que ele, cansado de tanto orgulho, também adormecesse na areia da praia.


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Sobre o Autor:

Fotojornalista com trabalhos publicados em alguns dos principais jornais e revistas nacionais, tais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Istoé, entre outros.

Atualmente dirige a Agência Fotográfica Lunapress e também é docente do SENAC lecionando fotografia na unidade Jundiaí.

Colabora com diversos bancos de imagens internacionais com destaque para a iStockphotos e a Getty Image para os quais fornece principalmente imagens sobre a América Latina.

Fotografou para diversos veículos institucionais e é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de fotografia em “hight-speed” adotada pela Faculdade de Engenharia de Minas da USP para registrar o comportamento de partículas em reatores de flotação.

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