14
Set
10

O defeito especial

 Num sábado de tarde eu estava de bobeira na agência criando coragem para começar uma faxina no estúdio quando o Tiago Queiroz do Estadão apareceu na porta com um convite: “Bora fotografar lá no Parque do Trote na Vila Guilherme? Eles reabriram depois de 10 anos fechados”.

As opções eram encarar a faxinosa ou acompanhar o Tiago em um trabalho que ela começou quando o hipódromo da Vila Guilherme, já decadente, foi fechado uma década antes.

Em 2004 teve início um processo de tombamento da área como patrimônio ambiental, cultural e urbano da cidade.  Em 2006 a área do hipódromo foi transformada em parque especialmente pensado para pessoas deficientes e no projeto está previsto inclusive a construção de um centro de recuperação.  Mas por enquanto o parque existe mais no papel do que no mundo real.

Naquele sábado estava acontecendo no local a XIV Festa da Cultura Paulista Tradicional o que prometia um grande cardápio fotográfico para nós. Mas o ponto alto seria uma corrida de demonstração da sociedade de trote. Nessa modalidade os cavalos não são montados, mas conduzidos em uma espécie de charrete e a principal característica é o estilo da marcha do animal (a maioria da raça American Trotte importados da Argentina) onde parece ser mais importante a cadência e o ritmo do animal do que a sua força e velocidade.

Infelizmente quando a corrida de apenas duas voltas foi anunciada já estava anoitecendo e a iluminação capenga e danificada da pista abandonada por anos não prometia ser de grande ajuda.

As condições não eram animadoras: Fotografar um motivo em alta velocidade em uma cena com pouca luz e sem muitas chances de repetir a tomada. Não tem ISO alto e lente clara que resolva! Optei então por assumir que a imagem sairia borrada e decidi utilizar a técnica de panning que consiste em mover a câmera com uma velocidade de obturador baixa no mesmo sentido em que o objeto fotografado se move.

A idéia é que ao mover a câmera junto com o objeto, na verdade o objeto estará parado em relação à câmera o que permite o seu registro com uma nitidez razoável enquanto o fundo (que estará se movendo) gera um desfoque que realça a idéia de velocidade.

Isso é o que costumamos chamar brincando de “defeito especial” que consiste em transformar (ou ao menos tentar transformar!) uma limitação em uma vantagem para valorizar uma imagem tecnicamente difícil de ser realizada.

Ficha da foto:

– Camera: Nikon D-700

– ISO: 3200

– Lente: Nikon 24-85mm f2.8 em 56mm

– Velocidade: 1/20s.

Quem quiser ver as imagens feitas pelo Tiago e conhecer um pouco mais do seu trabalho como fotojornalista visite o blog http://www.cenasdodia.blogspot.com/

Vale à pena!


4 Responses to “O defeito especial”


  1. 1 Izabela Monjardim
    14/09/2010 às 11:09

    Fotografia é pura vida e nesta foto vc consegue mostrar o dinamismo , o momento fica eternizado….vc é sempre perfeitooo porque fotografo tem de ter sensibilidade , talento e sorte p/ estar no lugar certo e no momento certo tb !!!!

  2. 2 Graziela
    22/09/2010 às 17:47

    Creio mesmo que esse tipo de foto é difícil fazer…é tentar e repetir e repetir pra uma dar certo! Mas,sendo você, eu não duvido de nada!!!Pô mêu,…impressionante,ficou perfeito a sensação de velocidade e ainda deu aquele toque especial na foto. O que mais achei incrível foi que teve que usar tudo ao extremo, ou seja, ISO muito alto, grande abertura e uma velocidade baixíssima!! Digo isso porque às vezes uma coisa compensa a outra e nesse caso não. Olha, BABEI nessa foto, ou melhor, no meu computador mesmo!!….Essa iluminação deu até um efeito de irreal, coisa fantástica, né!

  3. 23/09/2010 às 11:29

    Oi Grazy!

    Não é tão difícil assim! Desde que você evite tomar uns gorós antes de fotografar… Requer um pouquinho de prática, é verdade. Um monopé ou um bom ponto de apoio para mover a câmera também ajudam. É só praticar que você domina a técnica rapidinho!

    • 4 Graziela
      19/10/2010 às 22:52

      Olá Fernando!(de novo, mas agora respondendo ao seu comentário)

      É…vc tinha razão! Não é tão difícil e peguei o jeito rapidinho – como disse – já fiz um bocado de fotos parecidas com a sua, claro que não foi com cavalos (ainda), mas com outros motivos em movimento,sendo que algumas resultaram um efeito parecido, já outras chegaram a dar um efeito até interessante!E detalhe:tudo na mão e movida a água, sem gorós, sem álcool,rsrs….nisso sou bem responsável!!
      Da próxima vez que for na agência eu levo as fotos pra vc ver, ok?…ou melhor, quando vc for alugar o estúdio de novo, me dê um toque que eu vou, assim não atrapalho vc em nada,certo?! Ah!comprei também uma “saboneteira”…é, tô gastando,ou seja, investindo!!
      Acho que agora posso dizer que realmente aprendi a dominar o Digital – deixei completamente o filme e o papel…só na lembrança!
      Pois é, esse curso de fotografia no Senac me incentivou tanto…por que será,…né?!
      Bom, é isso, obrigado pelas suas palavras, elas fazem as coisas acontecerem!!

      Beijos (e já estou com saudades!)
      Grazy


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Sobre o Autor:

Fotojornalista com trabalhos publicados em alguns dos principais jornais e revistas nacionais, tais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Istoé, entre outros.

Atualmente dirige a Agência Fotográfica Lunapress e também é docente do SENAC lecionando fotografia na unidade Jundiaí.

Colabora com diversos bancos de imagens internacionais com destaque para a iStockphotos e a Getty Image para os quais fornece principalmente imagens sobre a América Latina.

Fotografou para diversos veículos institucionais e é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de fotografia em “hight-speed” adotada pela Faculdade de Engenharia de Minas da USP para registrar o comportamento de partículas em reatores de flotação.

Imagens da América do Sul

Imagens do Brasil


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