20
Fev
11

a fotografia em ambientes extremos


O altímetro pendurado em meu pescoço indicava 5331 metros acima do nível do mar e o pico do Chacaltaya encontrava-se portanto a apenas 90 metros de distância vertical. Menos de um quarteirão.

O caminho para o cume se estendia por uma crista suave coberta por uma camada de neve firme, o tempo estava bom, sem ventos fortes e a temperatura de -15 graus daquele ensolarado dia de verão podia ser considerada boa para aquela altitude.

Ao sul e ao norte era possível observar a Cordilheira dos Andes por centenas de quilômetros. A leste o Altiplano, cerca de dois quilômetros abaixo, se estendia até a linha onde o horizonte se curvava acompanhando as formas da Terra. Apenas a nordeste a visão era bloqueada pelo maciço Huayana-Potosí com seus 6088 metros.

Apoiado sobre os bastões de caminhada parei para realizar o ritual que já vinha repetindo a cada 5 ou 8 metros nas últimas horas: Respirar lenta e profundamente várias vezes para tentar reduzir a incômoda sensação de ter meu coração batendo descontroladamente contra os ossos do tórax enquanto meu cérebro zumbia como uma turbina. Mas por mais fundo que eu tentasse respirar meu peito praticamente não se distendia e apenas uma porção de ar ínfima e gelada entrava em meus pulmões.

Conferi mais uma vez o altímetro e o relógio. Era hora de tomar uma difícil decisão com a qual mais cedo ou mais tarde todo alpinista de alta montanha acaba se confrontando: Continuar ou retornar. O pico estava próximo, o tempo bom, mas por outro lado subir uma montanha é apenas metade do caminho e eu já ultrapassara o limite de voltar ainda com a luz e o calor do dia.

 Dei uma última olhada para o pico e para as montanhas nevadas ao meu redor, girei o corpo e iniciei a descida, consciente de que no verão seguinte a montanha continuaria lá, mas talvez eu não… Você se sente miseravelmente pequeno nesse momento e passa a entender claramente porque todos os povos que vivem ao redor das altas montanhas vêem esses gigantes como deuses. Deuses que podem ser benevolentes ou cruéis dependendo da atitude que nós, frágeis humanos, temos frente a eles.

Em altitude a mente nos prega peças facilmente. Com pouco oxigênio o raciocínio fica bastante comprometido e tudo parece flutuar em câmera lenta ao seu redor. Amarrar os cadarços da bota ou abrir o zíper do bolso para sacar a câmera são atos que requerem concentração, tempo e muita determinação. É fácil cometer erros banais que podem ter conseqüências graves como ter as mãos congeladas por esquecer-se de vestir as luvas. Parece absurdo, mas já vi isso acontecer.

Fotografar em ambientes assim obviamente impõe uma série de desafios que vão muito além da técnica fotográfica. Não basta dominar a fotografia em si, é preciso entrar em sintonia com o ambiente ao seu redor para poder registrá-lo e voltar vivo.

Seja no alto de uma montanha, em um recife de corais sob o Oceano ou na umidade sufocante de uma floresta tropical, o fotógrafo precisa – antes de mais nada – dominar as técnicas de convivência e sobrevivência no ambiente em que se encontra. E entender como a fisiologia do seu corpo se altera e adapta a condições extremas é o principal passo para isso.

Em montanhas, por exemplo, basta subirmos para além dos 2700 metros (uma altitude relativamente modesta) para que nossos corpos comecem a sentir os efeitos da altitude.

E embora a diminuição dos níveis de oxigênio afete drasticamente o organismo é a baixa pressão atmosférica desses ambientes a principal vilã que pode levar seus pulmões ou o seu cérebro a literalmente explodirem. São acidentes gravíssimos e potencialmente fatais conhecidos por edema pulmonar e cerebral, respectivamente.

Para desenvolver a sintonia necessária para sobreviver e trabalhar em ambientes extremos, adaptando seu corpo e principalmente a sua mente é preciso construir uma bagagem de sucessos sucessivos.

A vida fica mais fácil nos Andes se antes de se aventurar por lá você já se sentisse em casa no Pico de Itatiaia, por exemplo. E para quem já viu o por do sol do alto da Pedra do Baú algumas vezes, Itatiaia não parece algo tão desafiador. E se você já tem o hábito de freqüentar um ginásio de escaladas a Pedra do Baú lhe parecerá familiar quando estiver aos seus pés pela primeira vez. Uma grande conquista tem por base uma série de pequenas conquistas menores que moldam nossa força de vontade e nos dão a bagagem mental necessária para o sucesso. E o sucesso nem sempre é atingir o pico mais alto. Muitas vezes pode ser o simples fato de voltar vivo.

O inglês George Mallory foi o primeiro ser humano a ficar de pé sobre os 8.849 metros do pico do Everest em 1924. Mas isso só seria contado ao mundo com todas as letras em 1999 quando seu corpo congelado foi encontrado por uma expedição internacional que decifrou seus últimos momentos enquanto descia do cume. Tanto Mallory quanto seu companheiro Irvine conquistaram a montanha, mas nunca mais a deixaram.

Embora a tecnologia nas últimas décadas tenha desenvolvido ferramentas incríveis para nos manter seguros e até mesmo relativamente confortáveis em ambientes hostis, as ferramentas primordiais e insubstituíveis que separam o fracasso do sucesso ainda são carregadas dentro desta fantástica caixinha que temos sobre nossos ombros.

Você pode abrir um pequeno envelope aluminizado em uma barraca acima dos cinco mil metros e se deparar com uma maravilhosa refeição de bacalhau ao forno com batatas gratinadas ao azeite e alecrim (agradeça as meninas da Liofoods por isso!). Mas essa pode ser a sua última refeição se não souber traduzir a linguagem com a qual os deuses das montanhas falam constantemente ao deus que vive dentro de você.


4 Responses to “a fotografia em ambientes extremos”


  1. 1 lmerck
    20/02/2011 às 16:34

    Fernando, imagino que você foi com uma expedição.
    Ainda assim, pela concentração ao subir a montanha, imagino que a sensação seja de estar sozinho (mas não ao ponto de enlouquecer).
    Então, o que se sente é de paz, reencontro, plenitude, vazio,…?

    • 21/02/2011 às 13:27

      Seja em uma grande expedição ou apenas com o seu dupla na outra ponta da corda, escalar em altitude é sempre um encontro consigo mesmo. É um momento de introspecção e comunhão entre você e a natureza (inclusiver a sua) de uma forma tão intensa que é a única explicação possível para querer repetir uma experiência tão desgastante quanto essa.

  2. 03/03/2011 às 04:39

    Olá Fernando!

    Primeiro, gostaria de te parabenizar pela aventura! Tem que ter muita força interior para encarar uma proposta destas. Sendo assim, deixo aqui as minhas felicitações!

    No mais, gostaria de te fazer uma pergunta técnica. Como o equipamento fotográfico reagiu à baixa temperatura e ao clima hostil do vento e da neve? Você usou algum tipo de proteção?

    • 03/03/2011 às 08:38

      Oi Flávio, tudo bem? Obrigado por visitar o blog!

      Quanto ao equipamento utilizo uma Nikon D700 e uma F4 (para filme) que possuem uma blindagem razoável contra infiltrações de umidade causadas pela neve. Não senti necessidade de uma proteção extra para a câmera.

      Utilizo os cartões Sandisk da série Extreme que possuem vedação de silicone como proteção extra contra a umidade e uma faixa de operação entre -25 a 85 graus de temperatura. Embora nunca tenha tido problemas com esses cartões, pelo sim, pelo não, prefiro usar vários cartões de pouca capacidade (4G) do que um único cartão de grande capacidade. Assim um eventual problema em um cartão não irá comprometer o trabalho inteiro.

      Uma dica: Quando viajo apenas com minha mochila opto por levar uma HD portátil da Photo Safe que permite descarregar as imagens diretamente do cartão e elimina a necessidade de carregar um notebook. Deixo essa HD no acampamento base para depois descarregar e fazer o backup dos cartões.

      As baterias originais da Nikon também se comportam bem em baixas temperaturas. Costumo carregar as baterias reservas dentro do casaco interno para mantê-las aquecidas com o calor do corpo até o momento do uso. O mesmo truque também vale para filmes fotográficos quanto opto por trabalhar com pelicula.

      A fotometria na neve requer alguns cuidados, pois o excesso de claridade pode facilmente enganar o fotômetro causando subexposições.

      A radiação UV também é muito acentuada em grandes altitudes, já que existe uma camada menor de atmosfera para filtra-la. Portanto filtros de proteção (e também protetor solar para a pele!) são obrigatórios. Um bom polarizador também ajuda muito.

      Boas fotos pra você!


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Sobre o Autor:

Fotojornalista com trabalhos publicados em alguns dos principais jornais e revistas nacionais, tais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Istoé, entre outros.

Atualmente dirige a Agência Fotográfica Lunapress e também é docente do SENAC lecionando fotografia na unidade Jundiaí.

Colabora com diversos bancos de imagens internacionais com destaque para a iStockphotos e a Getty Image para os quais fornece principalmente imagens sobre a América Latina.

Fotografou para diversos veículos institucionais e é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de fotografia em “hight-speed” adotada pela Faculdade de Engenharia de Minas da USP para registrar o comportamento de partículas em reatores de flotação.

Imagens da América do Sul

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