05
Nov
13

Imagens dos Sentidos

Ok: Confesso que entrei na sala de aula um tanto quanto assustado. E para ser sincero passei boa parte da noite anterior de olhos bem abertos pensando no que iria acontecer. Afinal em duas décadas com uma câmera na mão esse seria o desafio mais diferente que iria enfrentar.

Imagem

A ideia de oferecer uma oficina de fotografia para deficientes visuais começou a tomar forma quando entrei em contato com um trabalho realizado pela Samsung em uma escola para crianças cegas na Coréia. Comprei a ideia e a vendi para Martha, minha coordenadora no SENAC, que topou o desafio e me deu carta branca para montar o projeto.

A primeira e aparentemente mais óbvia questão com que me deparei foi:  Afinal como alguém que não dispõe do sentido da visão pode registrar imagens? As pistas para responder a isso começaram a pipocar da minha própria relação com o registro fotográfico e também das frustrações narradas por meus alunos do curso de introdução à fotografia.

E é bem possível que você – em algum momento – tenha partilhado de uma frustração semelhante a nossa. Imagine a seguinte cena: Você está em uma linda praia em um dia perfeito de sol. O calor é varrido da superfície da sua pele suavemente por uma brisa que carrega o perfume do mar. Seus pés são massageados pelo contato com a areia macia enquanto você caminha escutando o canto das aves que se sobrepõe ao contínuo ruído das ondas ao fundo e um quase imperceptível gosto de sal chega em seus lábios carregado pela maresia. E então você decide fazer um registro desse momento em uma foto.

Mas ao voltar para casa disposto a compartilhar com os amigos aquele momento postando a tal foto nos Facebooks da vida percebe que a  fotografia não vai além de um pálido esboço daquilo que você vivenciou durante sua caminhada pela areia da praia. E mesmo recorrendo a toda a galeria de filtros do Instagram a foto continua pobre e você começa a cogitar a hipótese de comprar (verbo maldito!) uma câmera nova que faça jus as imagens registradas em sua memória.

Mas antes de sair por aí torrando seu suado dinheirinho em uma câmera nova que – segundo a propaganda do fabricante – irá resolver todos os seus problemas e mais alguns, sente-se para receber esta triste notícia: Câmera nenhuma na face da Terra é capaz de registrar outra coisa do que a luz refletida pelos objetos para os quais foi apontada. E é só e somente isso que qualquer câmera é capaz de fazer.

1379843_545417615541199_2126672423_n-1

Por outro lado nosso cérebro trabalha de maneira bem mais complexa. As imagens que construímos do mundo ao nosso redor são montadas em nossa mente não só pelas informações captadas por nossos olhos, mas também por todos nossos outros sentidos, além de vivências, memórias e sentimentos. Todo esse conjunto sensorial trabalha em sinergia fornecendo os tijolinhos usados na construção daquilo que nossa mente só torna visível dentro de cada um de nós. E mesmo nossos olhos não são tão eficientes assim na formação de imagens: Tirando uma pequena área do centro de nosso campo de visão, todo o complexo quadro que enxergamos é mais baseado em suposições criadas por nosso cérebro do que por “dados coletados” por nosso mecanismo óptico. Mágicos e ilusionistas sabem disso a séculos e nos deixam maravilhados ao criarem armadilhas em que nossos pobres cérebros caem como patinhos.

E se a formação das imagens que percebemos é resultado de uma complexa coleta de dados vindos de todos os sentidos e processadas com base em nossas memórias e sentimentos, então mesmo quando tiramos a visão dessa equação ainda é possível preencher as informações necessárias para que nossas mentes criem uma imagem do que está ao nosso redor com base nos demais sentidos. Na prática funciona assim:

Tive anos atrás um gato vesgo chamado Clarence. Ele tinha a cabeça e o rabo escuros, bem como duas grandes manchas arredondadas no dorso e o restante do corpo branco. As vezes eu ficava lendo na varanda e Clarence vinha deitar ao meu lado no sol. Me divertia fechando os olhos e deslizando minha mão sobre seu pelo sentindo a diferença de temperatura entre o pelo claro e as manchas escuras que absorviam mais calor. Era bem fácil perceber o padrão da pelagem apenas pela variação da temperatura. Experimente em casa fazer algumas imagens de olhos vendados e você verá que seus demais sentidos podem fornecer uma percepção bem rica do que está ao seu redor.

Foi baseado nessa constatação de que percebemos imagens através de todos os nossos sentidos que comecei a dar corpo a oficina “Imagens dos Sentidos”.

E apesar do medo aprendi muito com essa minha primeira turma de alunos:

Descobri, por exemplo, que smartphones são perfeitos para serem usados pelos deficientes visuais para fotografar, pois programas de orientação por voz facilitam bastante o acesso e controle da câmera. Um software para Iphone chamado “Voice Over” em especial chamou bastante minha atenção. Ele não só fornece instruções audíveis para a regulagem da câmera, mas também orienta o enquadramento e até mesmo a posterior edição das imagens informando ao usuário se as fotos exibidas na galeria, estão tremidas, desfocadas ou com problemas de exposição.

O próximo passo será imprimir as imagens em algum sistema tridimensional para que seus autores possam também apreciar seus trabalhos. Isso pode ser feito através de impressoras 3D, impressoras para Braille ou mesmo através de cópias fotográficas tradicionais com os contornos das formas pontilhadas com uma agulha.

Agradeço aos meus alunos pelo aprendizado que me proporcionaram e por terem mandado o medo do escuro para longe de mim.


0 Responses to “Imagens dos Sentidos”



  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


Sobre o Autor:

Fotojornalista com trabalhos publicados em alguns dos principais jornais e revistas nacionais, tais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Istoé, entre outros.

Atualmente dirige a Agência Fotográfica Lunapress e também é docente do SENAC lecionando fotografia na unidade Jundiaí.

Colabora com diversos bancos de imagens internacionais com destaque para a iStockphotos e a Getty Image para os quais fornece principalmente imagens sobre a América Latina.

Fotografou para diversos veículos institucionais e é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de fotografia em “hight-speed” adotada pela Faculdade de Engenharia de Minas da USP para registrar o comportamento de partículas em reatores de flotação.

Imagens da América do Sul

Imagens do Brasil


%d bloggers like this: