Posts Tagged ‘Audiovisual

20
Nov
13

O gato fotógrafo

Quando meus alunos chegam ao curso de fotografia trazem um universo de questões para as quais afobadamente querem respostas. Em suas cabeças rodam fantasminhas que vão desde palavras como velocidade e abertura a termos misteriosos como sRGB e Adobe RGB. Eles se preocupam tremendamente com a escolha do equipamento, com o desempenho de sensores e coisas como quantidade de pontos de foco.

Claro que a câmera e a técnica envolvida no seu manuseio é importante para um fotógrafo, mas a verdade é que isso é apenas uma pequena parte do universo fotográfico. Imagine uma pessoa que decida fazer uma caminhada: Ela pesquisa tudo sobre o melhor calçado possível, lê tudo o que encontra no Google sobre solas e cadarços, mas esquece de pesquisar sobre seu destino. De posse da melhor bota de caminhada do mundo é bem possível que essa pessoa – com alguma frustração – simplesmente não saiba para onde ir, não extraia nem a milésima parte do que aquele calçado poderia lhe proporcionar e acaba por utilizar suas super botas para ir buscar pão na padaria da esquina.

Oras! Mais importante do que o sapato é o pé! Até porque a humanidade caminhou descalça por milênios não é mesmo? E conseguimos, bem ou mal, chegar até aqui… E agora preste muita atenção: Mais importante do que o pé é o caminho.

E onde entra a fotografia nessa história sobre pés, caminhos e caminhadas? Quando pergunto a um jovem fotógrafo não como, mas porquê fotografar isso frequentemente resulta em um nó mental. Ok: Caminho é algo que se constrói ao caminhar, mas é preciso algum norte, algum rumo É preciso ter uma história para contar, criar significâncias e dessignificâncias antes, durante e depois de sair por aí apertando o disparador da câmera. É assim que se dá alma a fotografia, a sua alma. Isso será muito mais relevante para a qualidade da sua fotografia do que o fato de usar uma câmera equipada com o recurso da última coqueluche inventada pelo mercado.

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Antes de aprender a fotografar é preciso aprender a ver. Vivemos a contradição de sermos bombardeados diariamente por milhares de imagens numa sociedade de analfabetos visuais. É fácil definir a fotografia como “escrever com luz”, mas escrever o quê? Que imagens do mundo você quer contar? Como e para quem você quer contar? E o mais importante: Por que contar?

Se me perguntarem hoje qual o segredo para produzir boas imagens tenho uma receitinha infalível pronta (E é incrível como as pessoas adoram receitinhas infalíveis prontas!) Aproveite e anote pois levei quase duas décadas fotografando para descobrir isso:

1 – Arranje um gato. Pode ser qualquer gato, mas os vira-latas tendem a funcionar melhor.

2- Esqueça um pouco da sua câmera e fique apenas observando o gato por algumas semanas.

3 – Fotografe como o gato vê o mundo.

Fica a charada para quem estiver disposto a ver o mundo com outros olhos.

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05
Nov
13

Imagens dos Sentidos

Ok: Confesso que entrei na sala de aula um tanto quanto assustado. E para ser sincero passei boa parte da noite anterior de olhos bem abertos pensando no que iria acontecer. Afinal em duas décadas com uma câmera na mão esse seria o desafio mais diferente que iria enfrentar.

Imagem

A ideia de oferecer uma oficina de fotografia para deficientes visuais começou a tomar forma quando entrei em contato com um trabalho realizado pela Samsung em uma escola para crianças cegas na Coréia. Comprei a ideia e a vendi para Martha, minha coordenadora no SENAC, que topou o desafio e me deu carta branca para montar o projeto.

A primeira e aparentemente mais óbvia questão com que me deparei foi:  Afinal como alguém que não dispõe do sentido da visão pode registrar imagens? As pistas para responder a isso começaram a pipocar da minha própria relação com o registro fotográfico e também das frustrações narradas por meus alunos do curso de introdução à fotografia.

E é bem possível que você – em algum momento – tenha partilhado de uma frustração semelhante a nossa. Imagine a seguinte cena: Você está em uma linda praia em um dia perfeito de sol. O calor é varrido da superfície da sua pele suavemente por uma brisa que carrega o perfume do mar. Seus pés são massageados pelo contato com a areia macia enquanto você caminha escutando o canto das aves que se sobrepõe ao contínuo ruído das ondas ao fundo e um quase imperceptível gosto de sal chega em seus lábios carregado pela maresia. E então você decide fazer um registro desse momento em uma foto.

Mas ao voltar para casa disposto a compartilhar com os amigos aquele momento postando a tal foto nos Facebooks da vida percebe que a  fotografia não vai além de um pálido esboço daquilo que você vivenciou durante sua caminhada pela areia da praia. E mesmo recorrendo a toda a galeria de filtros do Instagram a foto continua pobre e você começa a cogitar a hipótese de comprar (verbo maldito!) uma câmera nova que faça jus as imagens registradas em sua memória.

Mas antes de sair por aí torrando seu suado dinheirinho em uma câmera nova que – segundo a propaganda do fabricante – irá resolver todos os seus problemas e mais alguns, sente-se para receber esta triste notícia: Câmera nenhuma na face da Terra é capaz de registrar outra coisa do que a luz refletida pelos objetos para os quais foi apontada. E é só e somente isso que qualquer câmera é capaz de fazer.

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Por outro lado nosso cérebro trabalha de maneira bem mais complexa. As imagens que construímos do mundo ao nosso redor são montadas em nossa mente não só pelas informações captadas por nossos olhos, mas também por todos nossos outros sentidos, além de vivências, memórias e sentimentos. Todo esse conjunto sensorial trabalha em sinergia fornecendo os tijolinhos usados na construção daquilo que nossa mente só torna visível dentro de cada um de nós. E mesmo nossos olhos não são tão eficientes assim na formação de imagens: Tirando uma pequena área do centro de nosso campo de visão, todo o complexo quadro que enxergamos é mais baseado em suposições criadas por nosso cérebro do que por “dados coletados” por nosso mecanismo óptico. Mágicos e ilusionistas sabem disso a séculos e nos deixam maravilhados ao criarem armadilhas em que nossos pobres cérebros caem como patinhos.

E se a formação das imagens que percebemos é resultado de uma complexa coleta de dados vindos de todos os sentidos e processadas com base em nossas memórias e sentimentos, então mesmo quando tiramos a visão dessa equação ainda é possível preencher as informações necessárias para que nossas mentes criem uma imagem do que está ao nosso redor com base nos demais sentidos. Na prática funciona assim:

Tive anos atrás um gato vesgo chamado Clarence. Ele tinha a cabeça e o rabo escuros, bem como duas grandes manchas arredondadas no dorso e o restante do corpo branco. As vezes eu ficava lendo na varanda e Clarence vinha deitar ao meu lado no sol. Me divertia fechando os olhos e deslizando minha mão sobre seu pelo sentindo a diferença de temperatura entre o pelo claro e as manchas escuras que absorviam mais calor. Era bem fácil perceber o padrão da pelagem apenas pela variação da temperatura. Experimente em casa fazer algumas imagens de olhos vendados e você verá que seus demais sentidos podem fornecer uma percepção bem rica do que está ao seu redor.

Foi baseado nessa constatação de que percebemos imagens através de todos os nossos sentidos que comecei a dar corpo a oficina “Imagens dos Sentidos”.

E apesar do medo aprendi muito com essa minha primeira turma de alunos:

Descobri, por exemplo, que smartphones são perfeitos para serem usados pelos deficientes visuais para fotografar, pois programas de orientação por voz facilitam bastante o acesso e controle da câmera. Um software para Iphone chamado “Voice Over” em especial chamou bastante minha atenção. Ele não só fornece instruções audíveis para a regulagem da câmera, mas também orienta o enquadramento e até mesmo a posterior edição das imagens informando ao usuário se as fotos exibidas na galeria, estão tremidas, desfocadas ou com problemas de exposição.

O próximo passo será imprimir as imagens em algum sistema tridimensional para que seus autores possam também apreciar seus trabalhos. Isso pode ser feito através de impressoras 3D, impressoras para Braille ou mesmo através de cópias fotográficas tradicionais com os contornos das formas pontilhadas com uma agulha.

Agradeço aos meus alunos pelo aprendizado que me proporcionaram e por terem mandado o medo do escuro para longe de mim.

29
Maio
10

Sobre lentes e linguagem

A lente que você escolhe no momento de fotografar não determina apenas a distância focal ou a profundidade de campo da imagem que será capturada. Mais importante do que isso, determina a sua relação com o objeto fotografado.

De um modo geral quando se trabalha com grande angulares, por exemplo, é necessário que o fotógrafo se aproxime de seu tema e isso gera uma série de implicações: O fotógrafo é obrigado a ter uma interação muito mais profunda com a cena que está registrando e muitas vezes passa a fazer parte dela.

Pessoas presentes na cena registrada fatalmente irão reagir de alguma maneira a uma presença tão íntima do fotógrafo e este deverá ter a sensibilidade necessária para conduzir essa interação para a história que está narrando em sua fotografia. Não existe neutralidade ao se trabalhar com grande angulares ao fotografar pessoas.

Mesmo quando os retratados passam a se comportar de forma mais espontânea, isso significa que houve uma relação de aceitação e confiança entre os dois lados da objetiva.

Procissão de Ramos em San José de Chiquitos – Bolívia: Lente 24mm em f8 com 1/80s. ISSO 400 (Câmera Nikon D700)

A grande profundidade de campo e principalmente a perspectiva exagerada das grande angulares confere à imagem uma dramaticidade que não ocorre em lentes mais longas. Por essa razão essas lentes são as prediletas na linguagem do fotojornalismo clássico onde vale a regra de que se a imagem não ficou boa é porque você não se aproximou o suficiente.

Quando o fotógrafo não está apenas vendo a cena, mas sim participando da mesma, permitindo que todos os seus outros sentidos, além da visão, capturem o momento ele passa a fazer parte da história e não apenas a registrá-la. E isso carrega inúmeras conseqüências pessoais, autorais e mesmo éticas e morais.

No extremo oposto estão as teleobjetivas que permitem ao fotógrafo um certo distanciamento do assunto retratado. O fotógrafo passa a ficar de fora da cena registrada e a aparente imparcialidade dessa posição permite uma maior espontaneidade das pessoas retratadas. O menor ângulo de cobertura e o achatamento dos planos são um convite para explorar os detalhes, isolando fragmentos dentro de uma narrativa maior.

Fiesta Del Gran Poder – La Paz – Bolívia: Lente 135mm em f2.8 com 1/800s. ISO 400 (Câmera Nikon D700)

Se por um lado a teleobjetiva provoca uma certa frieza gerada pelo distanciamento, por outro permite uma rica captura de expressões e ações das quais o fotógrafo não é ator, mas sim espectador.

Sair da cena e afastar-se da história produz um relato menos passional mais alinhado com uma linguagem científica e antropológica, por exemplo. A cena se desenvolve a frente da lente com pouca ou nenhuma interferência do fotógrafo. Mas isso não significa que o fotógrafo não está produzindo uma interferência na narrativa, já que ao determinar quais os fragmentos da cena que serão enquadrados e registrados estará atuando como um filtro sobre a realidade que está documentando.

Independente de sua posição em relação à cena, a colcha de retalhos que compõe os instantes registrados em uma narrativa fotográfica é o resultado autoral dessa narrativa. E como a fotografia não se faz através dos olhos, mas sim do cérebro a bagagem pessoal do autor será refletida através das suas lentes. As lentes nos contam muito sobre a relação do fotógrafo com a cena registrada.

A teleobjetiva diz: “Eu vi” enquanto a grande angular diz: “Eu vivi”.

10
Out
09

Fiesta del Gran Poder

Uma história de amor pelo Altiplano unindo a Bolívia e o Peru




Sobre o Autor:

Fotojornalista com trabalhos publicados em alguns dos principais jornais e revistas nacionais, tais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Istoé, entre outros.

Atualmente dirige a Agência Fotográfica Lunapress e também é docente do SENAC lecionando fotografia na unidade Jundiaí.

Colabora com diversos bancos de imagens internacionais com destaque para a iStockphotos e a Getty Image para os quais fornece principalmente imagens sobre a América Latina.

Fotografou para diversos veículos institucionais e é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de fotografia em “hight-speed” adotada pela Faculdade de Engenharia de Minas da USP para registrar o comportamento de partículas em reatores de flotação.

Imagens da América do Sul

Imagens do Brasil