Posts Tagged ‘Biografia

06
Jan
15

vinte anos depois

E a exatos vinte anos eu deixava de ser um fotógrafo “de bico” fazendo fotos nas festas da faculdade de fisioterapia para começar minha carreira profissional na Editora Imprensa que editava o jornal “O Imparcial” em Presidente Prudente no interior de São Paulo.

De lá pra cá trabalhei em vários jornais e revistas, grandes e pequenos, montei minha própria agência, investi em bancos de imagem, montei um estúdio e por fim encontrei dentro da minha paixão a minha maior realização que é lecionar.

Me formei dentro da fotografia analógica, entre rolos e mais rolos de Provias e Velvias tendo por muito tempo a maravilhosa F4 como fiel companheira. Uma câmera que além de fotografar é ótima para bater bife e calçar pneu de carreta. Fui laboratarista e ainda hoje acordo no meio da madrugada suando frio, com o coração disparado e sentindo o cheiro de Dektol Kodak…

Torci o nariz para o surgimento da fotografia digital, me rendi a ela no momento certo, mas nunca abandonei a companhia dos meus cromos. Acredito que tive muita sorte de pertencer a última geração de profissionais que teve que conviver a fundo com esses dois universos opostos muito mais interligados do que imagina a nossa vã filosofia.

Passei por m83A0696uitos perrengues e mesmo por alguns sérios momentos de risco de vida. É sempre um choque descobrir que a própria carne não é a prova de balas. Mas esses momentos foram muito úteis para me ajudar a ver a vida numa perspectiva peculiar. Mergulhei em uma profissão que me coloca diariamente em contato com pessoas e coisas das mais variadas nas mais diferentes situações. Vi e vivi do melhor e do pior nesses anos. Vivo intensamente por isso.

Tive e ainda tenho que me reinventar constantemente em uma jornada onde um dia nunca é igual a outro e embora isso possa parecer sedutor num primeiro momento requer uma impassibilidade de monge tibetano.

Tem sido uma boa vida pautada na paixão e na liberdade onde eventualmente ter passado fome acaba sendo apenas uma piada para ser compartilhada com os amigos durante um jantar. E que venham mais vinte anos!

10
Dez
13

Umburanas

Meu avô Floriano me ensinou quando eu ainda era criança que andar com algumas sementes de Umburana no bolso da calça ao caminhar pelas matas era um seguro garantido contra o encontro acidental com alguma jararaca.

O segredo era que as sementes tinham que ser em número ímpar: 3, 5 ou 7, não importava, mas o cheiro ímpar e adocicado daquelas sementes seria por alguma razão odiado pelas cobras.

Durante anos andei com aquelas sementes guardadas em um pequeno estojo feito com um coquinho de babuçu pela minha bisavó… Ainda guardo com carinho o estojo, mas a décadas que não sinto aquele cheiro adocicado da Umburana.

E hoje, do nada, essa lembrança olfativa saltou de algum canto empoeirado da minha memória e o aroma das pequenas sementes secas com suas estrias negras e irregulares subiu pelas minhas narinas. Haverá alguma cobra rondando por perto? Vai saber…

O fato é que independente das cobras essa lembrança de outra vida vivida em outro mundo baseada em um conhecimento perdido e hoje inútil me fez sorrir e pensar com carinho naqueles espíritos que se foram de fora, mas que vivem dentro de mim com o seu sangue correndo por minhas veias.

09
Fev
10

O Velho Messias

Messias não tinha exatamente uma idade. Era velho de vivido, pele negra ressecada ao sol cobrindo um corpo magro, austero e um olhar amarelado de quem não quer dizer muita coisa.

 A perna coxa, resultado de um encontro casual com alguma jararaca em suas andanças na lida diária pela restinga, também não era tão coxa assim. Mas se fazia coxa o suficiente para livrar o resto de seu corpo dos trabalhos mais pesados nas plantações de banana.

Por conta disso cabia ao velho Messias tarefas mais amenas: Capinar o terreno atrás da casa onde nós, crianças, brincávamos e tentar nos manter livres do inevitável contato com cobras, aranhas e outros grilos. Cuidava dos cavalos, quando havia cavalos, buscava alguma compra na venda perto dos trilhos do trem… Salgar o peixe ele não salgava, pois achava isso coisa pra mulher.

Alguns prazeres chegavam ao velho pela boca desde sempre: A cachaça com Cambuci, o pirão de peixe, a farinha, a pimenta… Ah a pimenta! Sublime tempero para qualquer coisa, em qualquer tempo. Curtida durante meses num vidro de tampa enferrujada era sempre posta à mesa com toda pompa e cerimônia.

O velho não dizia, talvez por não saber dizer,  mas é certo que algumas coisas chegavam até sua alma. A chuva pesada, trazida pelo vento sudoeste, chicoteava e atravessava a pele nua do seu peito e lavava seu coração. Messias era filho de Iansã, a dona das tempestades e dos trovões.

Mas o que enchia o velho caiçara de prazer era tomar conta da propriedade. Imbuído da autoridade conferida pela velha espingarda passarinheira de cano muito longo e por um estoque de dois ou três cartuchos soltos dentro do bolso, percorria os caminhos da restinga com agilidade impressionante, fazendo faceiro a ronda pelas trilhas e picadas do entorno. Orgulhoso, esquecia que a perna seria coxa, e andava altivo nos informando de sua posição de tempos em tempos com seu outro tesouro: O apito.

E assim dormíamos na casa, tranqüilos e seguros, ao som distante do apito do velho Messias a nos lembrar que a Lei e a Ordem estavam garantidas na restinga. Pelo menos até que ele, cansado de tanto orgulho, também adormecesse na areia da praia.

19
Out
09

Definindo Fotografia:

Fotografia é uma necessidade. Não chega a ser um vício, já que eu poderia viver sem ela, mas é uma necessidade que berra em meus ouvidos e quer ser contada e multiplicada.

Insiste em ser uma justificativa suportável para a solidão dos meus olhos. Carrega em si um nervosismo contemplativo que me conforta ao me fazer saber parte da realidade pela qual caminho. Ao menos da realidade possível.

A fotografia é cruel. Já me fez roubar comida para seguir em sua trilha e não sinto nenhum orgulho nisso. Me condenou a não possuir uma casa menor do que o próprio mundo, a relações instáveis e profundas.

Ela não é a minha visão de nada, afinal seria muita pretensão da minha parte querer ter uma visão de algo. Mas me arremessa para dentro e me força a tentar entender a visão que carrego dentro mim. Sem piedade.

Fotografia não registra o reflexo da luz daquilo que nos cerca, registra o reflexo de nossas emoções naquilo que nos cerca. Fotografia é uma forma de comunhão com algo de sagrado que existe em cada metro quadrado dentro ou fora de mim. Ela não aprisiona cores ou formas, mas se alimenta de antigos espíritos atemporais. Ela reconhece o fluir das pedras, o cheiro das águas e o brilho esquecido nos subterrâneos.

Fotografar não me dá sentido, mas aponta na direção dos meus sentidos.

15957

12
Set
09

Autobiografia dos outros em mim

Quando aprendi que fotografia quer dizer “escrever com luz”, percebi que o primeiro fotógrafo que conheci foi Guimarães Rosa.

Eu queria poder contar histórias usando a poesia da luz e por um tempo tentei fazer isso usando apenas palavras. Mas não bastava. E fui conhecendo outros grandes fotógrafos: Caetano Veloso, Matisse, Antoni Gaudí… um dia, quase que por acidente, uma câmera caiu nas minhas mãos. Me disseram que aquela geringonça era capaz de escrever com luz. Torci o nariz, não quis passar por bocó e ir acreditando assim sem piscar. Riram e me mostraram Bresson. Tá vendo? Fui obrigado a concordar: Não era fácil, mas era possível fotografar usando uma câmera. Comprei o desafio e também uma Zenit russa que fazia plac, plac, plac enquanto escrevia.

Menino na Praça da Sé

Dorothea Lange, Tolstoi, Sebastião Salgado, Plínio Marcos, Chico Buarque… era essa turminha que se embaralhava nos meus olhos enquanto eu tentava escrever com a maquininha russa. Turminha boa, mas algo ainda faltava. Foi aí que entrou o Seu Mário: Ele era um japonês risonho dono de uma quitanda na rua onde eu morava. E foram as bancas de frutas e verduras simetricamente arrumadas por ele naquela quitanda que me contaram que cor não era só a cor não. Cor tinha gosto e também tinha cheiro. Aprendi a diferenciar o sabor do vermelho do cheiro do verde. Cor – e por que não? – contava histórias.

Mas não foi uma aceitação fácil. No mais das vezes eu deixava a cor trancada do lado de fora. Dizia pra ela: “Cor sua besta! Não vê que você tá atrapalhando tudo? Já pensou num Machado de Assis colorido? Vira bagunça! Vai já pro quintal!” Mas a cor aproveitava qualquer frestinha esquecida e quando eu saia pro quintal ela vinha e se escorria no meu olho com sua bagunça saturada. Resolvi dar uma canja pra ver se ela parava de me azucrinar.

Passo Jama na fronteira entre Chile e Argentina

Um dia sentamos em três viventes no alto de uma pedra que dava pra uma cachoeira na Serra da Canastra: Araquém Alcântara, a cor mais eu.  Eu estava todo contente, pois tinha uma máquina de escrever nova (uma Nikon, veja só!) e também tinha feito as pazes com a cor. Araquém se ria e dizia: “Mas será o Benedito? Não tá vendo que essa sua máquina veio com defeito? Falta o retrovisor! Não aprendeu nada com o Guimarães Rosa lá no começo? Pra enxergar lá pras bandas de fora o olho tem que se revirar pra dentro! Senão você enxerga só nas cascas das coisas do mundo!” E a cor – toda vingativa – ria junto com ele.

Desci da pedra e fui procurar quem conhecia as cores de dentro das coisas pra tomar aula. Gabriel Garcia Marquez foi o primeiro que teve paciência comigo. Fernando Pessoa me contou que na matemática das coisas reais um são muitos e o Pedro Martinelli passou pra dizer que um elefante pode ser sutil. O professor Domenico de Masi veio lá das Itálias pra me mostrar a importância de ficar sentado na soleira da porta olhando o trilho das formigas passar, e que se eu duvidasse que fosse perguntar pro poeta Manoel de Barros. Pois eu fui e vi que era verdade. Joseph Campbell botou na lousa que embora infinita a alma tem começo meio e fim e que de posse de tais esclarecimentos que fosse vagabundear pelos labirintos de Picasso. Fui e fiquei tonto.

Saí do labirinto todo zureta e fui me largar na cadeira dum bar pra pedir um gole de ar.  E não é que por um desses acasos pouco casuais da vida no mesmo bar estava o fotojornalista Pedro Viegas? Ele botou reparo no meu colete e viu que eu era da irmandade dos contadores de história que ganha uns trocos fotografando causos pras redações da vida e me chamou pra dividir mesa. Pois sentamos, ele com seu copo de vinho eu com meu copo de ar cheio até a boca. E pedimos porção. Veio Koudelka a dorê e também Nair Benedicto, Juca Martins, Jorge Araújo e Evandro Teixeira, tudo bem temperadinho com caldo de redação.

Viegas percebeu que eu estava um tanto quanto zuretado na minha busca por entender e crescer que disse bem assim: ”Nêgo presta atenção: O melhor lugar pra se crescer é dentro duma semente”. Pensei, pensei e vendo sentido naquela colocação fui morar dentro de uma semente por uns tempos. E os tempos viraram anos. Ficava lá sentado dentro da semente me auto digerindo à moda de Mário de Andrade esperando a luz certa para brotar.

Estrada para Calama - Chile

Passado o tempo que devia passar, num dia feito qualquer outro dia, a luz bateu em meus olhos e segui caminho.  Vi nesse caminho que nunca, mas nunca mesmo se aprende tudo o que há para se aprender. Sempre há que se cheirar o que outros contadores de história estão fotografando por aí pra se entender um pouco melhor a história que estamos contando para nós mesmos.  E tem muito fotógrafo bom por aí, basta prestar atenção: Podem ser tocadores de flauta numa ruela de Cuzco, pode ser a minha tia Sônia que fotografa com idéias e palavras enquanto prepara farofa com banana na moda dos caiçaras. A desenhista Rosana Urbes que constrói imagens com risadas. Tem o Marcelo Greco que me ensina a gramática das coisas de enxergar. Muita gente.

Dia desses mesmo passei em frente a uma porta que tinha uma tabuleta por cima: “Descondicionamento do Olhar”.  Entrei de curioso. Lá dentro tinha um Doutor, por nome Cláudio Feijó que me segurou pelas orelhas e sacudiu tanto a minha cabeça que os pensamentos que estavam arrumadinhos nas gavetas do meu cérebro caíram todos no chão do céu da boca. Aí ele falou: “Deixa misturar tudo que o nome científico pra essa desordem de idéias é criatividade”. E não é que era mesmo? Fiquei me divertindo pegando um pensamento de cá e misturando com uma idéia de lá e puf! Brotava uma coisa nova! Misturei a idéia de cavalo com o conceito de um hipopótamo e vi minha mente fotografar um cavapótamo!  Só eu tinha comigo a imagem de um cavapótamo novinho em folha! O Doutor Cláudio riu da minha satisfação e falou: “Quer mais? Pois vamos lá fora que eu vou te ensinar como se faz pra ver a cor das coisas com os olhos fechados. Cor está no cérebro, não nos olhos e não nas coisas. Por isso você não precisa dos olhos pra enxergar a cor das coisas.” Não é que ele me ensinou mesmo?

Deixar de aprender com os outros sobre a história da gente só mesmo no último segundo da vida da gente. Esse derradeiro instante é reservado pra passar a régua e somar todo o muito pouco que entendemos do mundo. E então ficamos quietinhos. Deve de ser pra não estragar a surpresa pra aqueles que vêm depois!




Sobre o Autor:

Fotojornalista com trabalhos publicados em alguns dos principais jornais e revistas nacionais, tais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Istoé, entre outros.

Atualmente dirige a Agência Fotográfica Lunapress e também é docente do SENAC lecionando fotografia na unidade Jundiaí.

Colabora com diversos bancos de imagens internacionais com destaque para a iStockphotos e a Getty Image para os quais fornece principalmente imagens sobre a América Latina.

Fotografou para diversos veículos institucionais e é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de fotografia em “hight-speed” adotada pela Faculdade de Engenharia de Minas da USP para registrar o comportamento de partículas em reatores de flotação.

Imagens da América do Sul

Imagens do Brasil