Posts Tagged ‘filosofia

26
Mar
10

Fotografia digital é coisa do passado!

Não acho saudável comparar a fotografia analógica com a digital em termos de “ou uma ou outra.” Afinal cada processo tem seus valores, mas também suas limitações e problemas.

Contudo acho importante ter em mente que se por um lado o digital nos trouxe inúmeros benefícios, também carrega em si algumas armadilhas. Acredito ser extremamente saudável para qualquer fotógrafo conhecer e praticar a fotografia com filmes, mesmo que ela não seja a sua ferramenta principal. Fotografar com película nos permite lançar um olhar mais crítico sobre o processo digital e entender o real impacto que essa tecnologia carrega.

Vejo em muitos alunos que estão começando agora e que não passaram pela experiência do uso do filme uma série de dificuldades recorrentes. E se a fotografia digital nos permite explorar e experimentar de forma mais intensa o fato é que poucos fazem isso.

A avalanche tecnológica que soterrou a fotografia na última década trouxe como um de seus efeitos colaterais um deslumbre que associa o moderno, o mais caro e o mais recente como sendo o único caminho possível para a qualidade. Claro que isso sempre existiu, mas a ditadura do mercado digital exacerbou muitíssimo esta questão. De um modo geral o fotógrafo hoje está mais preocupado com a ferramenta que vai usar para contar uma história do que com a sua história propriamente dita. Se pensarmos em outras artes que utilizam ferramentas de expressão de tecnologia mais baixa, como a poesia ou a pintura, seria como achar que a caneta ou o pincel são os elementos mais importantes para o processo criativo do autor.

Nossa sociedade desenvolveu uma cultura pelo novo, pelo descartável e pelo status do “ter” em detrimento do “ser”. Mas hoje começamos a perceber que essa imposição de mercado (que assola a fotografia como qualquer outro aspecto de nossas vidas) está nos levando a uma condição insustentável sobre o planeta e que chega inclusive a por em xeque nossa sobrevivência como espécie.

Questionar isso não é ser saudosista, muito menos ter uma resistência ao novo. Aliás, resistência ao novo é engolir sem questionar que a sua fotografia só terá valor o dia em que você dispor do seu suado dinheirinho para comprar a câmera modelo XYZ de N zilhões de megapixels.

Fico extremamente feliz quando vejo movimentos como a Lomografia e quando leio notícias como o relançamento da Polaroid. Há espaço para todos e quanto mais ferramentas tivermos a nossa disposição, mais modos teremos de contar nossas histórias e de nos encantar com a pluralidade de nossa humanidade.

09
Fev
10

O Velho Messias

Messias não tinha exatamente uma idade. Era velho de vivido, pele negra ressecada ao sol cobrindo um corpo magro, austero e um olhar amarelado de quem não quer dizer muita coisa.

 A perna coxa, resultado de um encontro casual com alguma jararaca em suas andanças na lida diária pela restinga, também não era tão coxa assim. Mas se fazia coxa o suficiente para livrar o resto de seu corpo dos trabalhos mais pesados nas plantações de banana.

Por conta disso cabia ao velho Messias tarefas mais amenas: Capinar o terreno atrás da casa onde nós, crianças, brincávamos e tentar nos manter livres do inevitável contato com cobras, aranhas e outros grilos. Cuidava dos cavalos, quando havia cavalos, buscava alguma compra na venda perto dos trilhos do trem… Salgar o peixe ele não salgava, pois achava isso coisa pra mulher.

Alguns prazeres chegavam ao velho pela boca desde sempre: A cachaça com Cambuci, o pirão de peixe, a farinha, a pimenta… Ah a pimenta! Sublime tempero para qualquer coisa, em qualquer tempo. Curtida durante meses num vidro de tampa enferrujada era sempre posta à mesa com toda pompa e cerimônia.

O velho não dizia, talvez por não saber dizer,  mas é certo que algumas coisas chegavam até sua alma. A chuva pesada, trazida pelo vento sudoeste, chicoteava e atravessava a pele nua do seu peito e lavava seu coração. Messias era filho de Iansã, a dona das tempestades e dos trovões.

Mas o que enchia o velho caiçara de prazer era tomar conta da propriedade. Imbuído da autoridade conferida pela velha espingarda passarinheira de cano muito longo e por um estoque de dois ou três cartuchos soltos dentro do bolso, percorria os caminhos da restinga com agilidade impressionante, fazendo faceiro a ronda pelas trilhas e picadas do entorno. Orgulhoso, esquecia que a perna seria coxa, e andava altivo nos informando de sua posição de tempos em tempos com seu outro tesouro: O apito.

E assim dormíamos na casa, tranqüilos e seguros, ao som distante do apito do velho Messias a nos lembrar que a Lei e a Ordem estavam garantidas na restinga. Pelo menos até que ele, cansado de tanto orgulho, também adormecesse na areia da praia.




Sobre o Autor:

Fotojornalista com trabalhos publicados em alguns dos principais jornais e revistas nacionais, tais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Istoé, entre outros.

Atualmente dirige a Agência Fotográfica Lunapress e também é docente do SENAC lecionando fotografia na unidade Jundiaí.

Colabora com diversos bancos de imagens internacionais com destaque para a iStockphotos e a Getty Image para os quais fornece principalmente imagens sobre a América Latina.

Fotografou para diversos veículos institucionais e é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de fotografia em “hight-speed” adotada pela Faculdade de Engenharia de Minas da USP para registrar o comportamento de partículas em reatores de flotação.

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