Posts Tagged ‘Fotografia

16
Maio
17

A Pequena e Incrível Hero 5

Ok. Não sou lá muito viciado em tecnologia e sempre achei que a luz e a história que se tem para contar com ela são mais importantes para o fotógrafo do que a ferramenta que ele utiliza para escrever essas histórias. Mas não há como negar que uma boa “máquina de escrever” ajuda a fotografia a acontecer de maneira plena, aliando conteúdo e estética.

Por isso, algumas das ferramentas que carrego na bolsa ou no colete, marcaram a minha narrativa de contador de história ao longo dos anos. Foi assim com a lente de 50mm, com a desengonçada câmera de médio formato ou com o filtrinho polarizador, por exemplo

No último mês mais uma traquitana juntou-se a esse pequeno arsenal de coisas que afetam diretamente a maneira como conto minhas histórias: A simpática camerazinha GoPro Hero 5.

Quero falar um pouquinho sobre ela aqui, mas não vou me ater muito as características técnicas dela, afinal essas informações você encontra facilmente nos Youtubes da vida. O que quero é dar as minhas impressões sobre ela como fotógrafo profissional.

1. Tamanho:

A primeira coisa que chama a atenção sobre uma GoPro é o tamanhico dela. Como estou acostumado a trabalhar com as grandes e robustas SLR utilizadas no fotojornalismo, foi difícil levar a sério um equipamento tão pequeno. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi: Qual o tamanho do sensor disso? Afinal tamanho de sensor e qualidade de imagem são duas coisas que andam de mãos dadas. Mas o fato é que os pequenos sensores têm evoluído drasticamente nos últimos anos. Prova disso são as câmeras de celulares que hoje são capazes de produzir imagens bastante aceitáveis em alguns casos.

Claro que a imagem capturada por uma GoPro não tem como competir de frente numa análise meramente técnica, com uma imagem produzida por uma DSLR full frame equipada com toda uma gama de objetivas. Mas a danadinha da GoPro conquista o seu lugar ao sol pela simples razão de que ela permite fazer coisas que seriam impossíveis (ou muito difíceis) para uma grande e pesada DSLR.

Ela foi criada literalmente para ser presa no bico de uma prancha por seu inventor surfista. Mas além de sua óbvia vocação para esportes de aventuras, ela acaba sendo bastante útil por não chamar a atenção (coisa que fotógrafos de rua adoram) e por poder estar sempre dentro do bolso (note que eu disse bolso e não bolsa). É uma companheira tão constante quanto a câmera de um celular, mas com grandes vantagens sobre esta.

2. Conectividade:

O pessoal da GoPro teve uma grande sacada ao torná-la quase que uma extensão de um celular. É possível controlar a câmera remotamente de maneira bem simples em todas as suas funções e visualizar o que ela esta vendo em tempo real na tela do seu telefone, além de poder compartilhar instantaneamente as imagens feitas por ela. Bem legal não? Isso abre um universo de possibilidades!

Por exemplo: Se você curte fotografar pássaros e fica sonhando em um dia ganhar na loteria para comprar uma fodástica 800mm, saiba que pode chegar bem perto desses simpáticos seres mudando a estratégia. Ao invés de “trazer o pássaro” até você com a teleobjetiva, “leve a câmera” até o pássaro utilizando o acesso remoto pelo celular. Deixe a GoPro perto de um ninho ou ponto de alimentação e divirta-se! Confira a simpática corujinha filmada assim no vídeo abaixo:

 

3. Acessórios:

Pense em um lugar para prender ou fixar uma GoPro. Pense num uso doido ou bizarro para ela. E pode ter certeza: existe um acessório ou sistema ideal para tornar isso possível. Sob a água, voando acoplada a um drone ou filmando estabilizada em um veículo de rally, controlada por voz, por rádio ou wifi. Uma das coisas mais divertidas dessa câmera é ficar imaginando qual será o seu próximo ponto de vista.

Aliás as câmeras de ação estão revolucionando a composição. A estética de imagens imersivas e com um ponto de vista pessoal estão cada vez mais presentes não só em vídeos de ação, mas também na publicidade, no fotojornalismo e até na fotografia social. Até mesmo no cinema essa pequenina faz grandes incursões tendo participado de produções como “Perdido em Marte” e “O Hobbit”

4. Recursos:

Ela tem todas essas coisinhas que os profissionais adoram: Fotografia em RAW, lente grande angular clara de f2.8, controle de exposição e vídeo 4K. Assim é possível manter o leque de opções criativas que temos em câmeras muito mais complexas. E por um preço justo.

Ela não substitui a versatilidade de uma DSLR, mas é uma boa aposta para complementar e ampliar o seu leque de opções independente da sua área de atuação.

Pode ter certeza que sempre haverá uma grande idéia que cabe dentro da pequena GoPro.

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28
Jul
16

Como se Proteger de Gás Lacrimogêneo

Desde as manifestações de 2013 os fotojornalistas estão tomando consciência da importância do uso de EPIs, mas por ser uma preocupação relativamente recente, ainda há muita desinformação e conceitos errados circulando por aí, como por exemplo o uso de vinagre como antídoto contra os efeitos do gás lacrimogêneo.

Mas afinal o que é esse tal de lacrimogêneo? Quais os seus efeitos e como se proteger efetivamente da sua ação?

_DSC5493Fernando Fernandes/ iStock

Na verdade existem dois tipos de gás: O CN e o CS. Ambos com efeitos muito parecidos, porém o CS é mais forte, embora se disperse mais rapidamente. Na prática os meios de proteção são os mesmos para as duas variações.

O gás – seja ele CS ou CN – é hidrossolúvel e é ativado em contado com as mucosas úmidas dos olhos, nariz e garganta, bem como pela pele suada ou molhada. Seus efeitos vão além das lágrimas e irritação podendo ocorrer:

– Ardência dos olhos com vermelhidão e lacrimejamento constante;

– Sensação de sufocamento;

– Tosse;

– Dor de cabeça;

– Irritação na garganta;

– Dificuldade de respirar;

– Sensação de queimadura na pele devido a reação do gás em contato com o suor e as lágrimas;

– Náuseas e vômito.

Como se proteger? A defesa mais eficaz é o uso de respiradores (máscaras) com filtros de carvão ativo que sejam voltados para uso contra vapores químicos (em especial a amônia), como por exemplo, o multigases 6006 da 3M. A linha 6000 tem cartuchos duplos em seus respiradores o que na prática é bem mais eficiente se você tiver que correr usando o respirador. Esses respiradores podem ser facilmente encontrados em lojas de equipamentos de segurança (EPI) e o conjunto de máscara e filtros sai por cerca de 100 Reais. Dicas: Guarde sua máscara montada com os cartuchos dentro de um saco plástico fechado para prolongar a vida útil dos filtros. Treine colocar o respirador com a respiração presa e de olhos fechados e deixe-o em local acessível durante o evento do qual estiver participando. Prefira as máscaras com bocal de silicone mais duráveis e confortáveis e teste antes da compra para verificar a vedação em seu rosto, especialmente se como eu, você usa barba!

_RGB5845.jpgLembre-se de que o uso do filtro correto é fundamental! Respiradores com proteção para partículas, como as máscaras de pintura, não oferecem proteção alguma. Outro mito, como mencionado no início deste texto, é o vinagre. O gás é alcalino e o ácido do vinagre em uma concentração de 5% pode neutralizar seus efeitos, porém seu uso é apenas indicado para aliviar irritações severas na pele caso a pessoa tenha sito exposta a concentrações muito elevadas de gás, o que não é comum. O vinagre não oferece proteção efetiva contra o gás inalado.

Foi pego de surpresa sem óculos e respirador? Corra afastando-se do local de preferência com os braços abertos e contra o vento. Só lave as áreas afetadas se dispor de água corrente em abundância, apenas molhar as áreas afetadas só irá agravar os sintomas. Troque de roupa assim que possível (aliás é uma boa ideia levar uma camiseta extra na sua bolsa) e guarde as roupas contaminadas em um saco plástico fechado para que não contaminem outras roupas ou objetos.

Os sintomas do gás normalmente desaparecem ou diminuem significadamente após a vítima voltar a respirar ar puro e passar por uma lavagem. Se após a exposição persistir algum sintoma – em especial a dificuldade de respirar – procure imediatamente suporte médico. As vezes será necessário se afastar da zona de conflito para solicitar o serviço de resgate, já que por diretriz de segurança, equipes de paramédicos não prestam socorro em locais de risco. Informe-se junto ao SAMU ou Corpo de Bombeiros e tenha sempre um plano de evacuação antes de iniciar a cobertura em uma zona de risco.

22
Jun
14

Porque me tornei professor

Depoimento recebido de uma aluna do curso de fotografia do SENAC e que vale mais do que qualquer salário:

Fernando, se te disser que eu estava pra te escrever esta semana, mas estava sem tempo, você acredita? Na verdade, é uma coisa que eu queria te falar há muito tempo… Você não tem noção do quanto o seu curso mudou a minha vida. Ele não mudou, ele revolucionou. Há pouco mais de um ano, eu não sabia o que ia fazer na vida, eu não sabia o que eu era (no sentido de reconhecer o meu objetivo, algo que eu amaria fazer).

Eu me apaixonei pela fotografia, mas a forma como eu me apaixonei é culpa sua. Foi o curso mais prazeroso que fiz em toda minha vida: Quatro horas seguidas que eu não via passar. Não só porque a fotografia é fascinante, mas a maneira como você me mostrou foi fascinante. Até hoje quando ouço Eden Roc (que conheci com o seu time lapse) me vem de dentro uma vontade de viver. Uma vontade de viajar, de fotografar, de explorar o mundo e suas possibilidades. Soa clichê, eu sei, mas é isso o que sinto. Você foi uma figura fundamental para me inspirar a ser o que eu sempre quis ser, não só como fotógrafa mas como pessoa. Você é uma pessoa livre. E não sei mais como dizer, acho que você deve ouvir isso o tempo todo, sendo professor de tantas pessoas. Mas pra mim, você não foi só aquele cara que bate cartão no horário e te  joga um monte de conhecimentos técnicos.

Você foi a janela que me trouxe uma das coisas mais valiosas que já conquistei. Obrigada. Receber um elogio seu significa muito.


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02
Maio
14

Convertendo RAW em JPEG usando a própria câmera

Que o formato RAW é uma das melhores invenções da fotografia na era digital você já sabe. E que, as vezes, ele pode ser bem chatinho de ser visualizado ou compartilhado você também já sabe. O que talvez não saiba é que é muito simples criar uma cópia no formato JPEG a partir de qualquer arquivo RAW da sua câmera sem a necessidade de um computador ou de um software específico para isso.

A cada dia que passa a conectividade tem um peso maior na fotografia digital. Quem não quer publicar instantaneamente suas imagens em uma rede social ou enviar rapidamente a foto do dia para o seu editor no jornal? Tanto que cada vez mais os fabricantes apostam em câmeras ou acessórios que permitam o envio de suas fotos para tablets ou celulares para que sejam rapidamente compartilhadas.

Mas se você trabalha com arquivos RAW acaba tendo um problema: Precisa converter esses arquivos em um computador para o formato JPEG antes de poder enviá-los ou então consumir espaço em seus cartões de memória salvando todas as suas imagens com a opção RAW + JPEG.

Contudo existe uma terceira opção bem simples que pode salvar o seu dia se você está com um arquivo RAW na câmera e precisa compartilhar o monstrinho. Os passos são os seguintes:

– Selecione o RAW que você quer converter no visor da câmera e acesse o menu de retoques.
– Escolha a função retoque de balanço de branco e simplesmente salve sem fazer nenhum ajuste na imagem.

– Pronto! A câmera vai entender que você fez uma edição e irá gerar uma cópia JPEG do seu RAW que você pode enviar ou compartilhar facilmente! Fácil não?

11
Dez
13

Caminhada Fotográfica – Centro Histórico de São Paulo

Venha participar de um programa diferente neste Feriado! Descubra os segredos e a história escondida no centro velho de São Paulo em uma caminhada fotográfica com coordenação e orientação do fotógrafo documentarista Fernando Fernandes – colaborador das Agências Getty, Istock, Estado e docente de fotografia do Senac.

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A caminhada é aberta à todos aqueles apaixonados por fotografia, independente denível de conhecimento ou equipamento.

Roteiro:

– Catedral da Sé
– Solar da Marquesa
– Pateo do Collegio
– Mosteiro de São Bento
– Vale do Anhangabaú
– Teatro Municipal
– Praça da República

Valor da Inscrição: R$ 60,00
O que levar: Câmera fotográfica, água, protetor solar
Ponto de encontro: Estação São Bento do Metrô
Mais informações: (11) 97125-3019

20
Nov
13

O gato fotógrafo

Quando meus alunos chegam ao curso de fotografia trazem um universo de questões para as quais afobadamente querem respostas. Em suas cabeças rodam fantasminhas que vão desde palavras como velocidade e abertura a termos misteriosos como sRGB e Adobe RGB. Eles se preocupam tremendamente com a escolha do equipamento, com o desempenho de sensores e coisas como quantidade de pontos de foco.

Claro que a câmera e a técnica envolvida no seu manuseio é importante para um fotógrafo, mas a verdade é que isso é apenas uma pequena parte do universo fotográfico. Imagine uma pessoa que decida fazer uma caminhada: Ela pesquisa tudo sobre o melhor calçado possível, lê tudo o que encontra no Google sobre solas e cadarços, mas esquece de pesquisar sobre seu destino. De posse da melhor bota de caminhada do mundo é bem possível que essa pessoa – com alguma frustração – simplesmente não saiba para onde ir, não extraia nem a milésima parte do que aquele calçado poderia lhe proporcionar e acaba por utilizar suas super botas para ir buscar pão na padaria da esquina.

Oras! Mais importante do que o sapato é o pé! Até porque a humanidade caminhou descalça por milênios não é mesmo? E conseguimos, bem ou mal, chegar até aqui… E agora preste muita atenção: Mais importante do que o pé é o caminho.

E onde entra a fotografia nessa história sobre pés, caminhos e caminhadas? Quando pergunto a um jovem fotógrafo não como, mas porquê fotografar isso frequentemente resulta em um nó mental. Ok: Caminho é algo que se constrói ao caminhar, mas é preciso algum norte, algum rumo É preciso ter uma história para contar, criar significâncias e dessignificâncias antes, durante e depois de sair por aí apertando o disparador da câmera. É assim que se dá alma a fotografia, a sua alma. Isso será muito mais relevante para a qualidade da sua fotografia do que o fato de usar uma câmera equipada com o recurso da última coqueluche inventada pelo mercado.

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Antes de aprender a fotografar é preciso aprender a ver. Vivemos a contradição de sermos bombardeados diariamente por milhares de imagens numa sociedade de analfabetos visuais. É fácil definir a fotografia como “escrever com luz”, mas escrever o quê? Que imagens do mundo você quer contar? Como e para quem você quer contar? E o mais importante: Por que contar?

Se me perguntarem hoje qual o segredo para produzir boas imagens tenho uma receitinha infalível pronta (E é incrível como as pessoas adoram receitinhas infalíveis prontas!) Aproveite e anote pois levei quase duas décadas fotografando para descobrir isso:

1 – Arranje um gato. Pode ser qualquer gato, mas os vira-latas tendem a funcionar melhor.

2- Esqueça um pouco da sua câmera e fique apenas observando o gato por algumas semanas.

3 – Fotografe como o gato vê o mundo.

Fica a charada para quem estiver disposto a ver o mundo com outros olhos.

05
Nov
13

Imagens dos Sentidos

Ok: Confesso que entrei na sala de aula um tanto quanto assustado. E para ser sincero passei boa parte da noite anterior de olhos bem abertos pensando no que iria acontecer. Afinal em duas décadas com uma câmera na mão esse seria o desafio mais diferente que iria enfrentar.

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A ideia de oferecer uma oficina de fotografia para deficientes visuais começou a tomar forma quando entrei em contato com um trabalho realizado pela Samsung em uma escola para crianças cegas na Coréia. Comprei a ideia e a vendi para Martha, minha coordenadora no SENAC, que topou o desafio e me deu carta branca para montar o projeto.

A primeira e aparentemente mais óbvia questão com que me deparei foi:  Afinal como alguém que não dispõe do sentido da visão pode registrar imagens? As pistas para responder a isso começaram a pipocar da minha própria relação com o registro fotográfico e também das frustrações narradas por meus alunos do curso de introdução à fotografia.

E é bem possível que você – em algum momento – tenha partilhado de uma frustração semelhante a nossa. Imagine a seguinte cena: Você está em uma linda praia em um dia perfeito de sol. O calor é varrido da superfície da sua pele suavemente por uma brisa que carrega o perfume do mar. Seus pés são massageados pelo contato com a areia macia enquanto você caminha escutando o canto das aves que se sobrepõe ao contínuo ruído das ondas ao fundo e um quase imperceptível gosto de sal chega em seus lábios carregado pela maresia. E então você decide fazer um registro desse momento em uma foto.

Mas ao voltar para casa disposto a compartilhar com os amigos aquele momento postando a tal foto nos Facebooks da vida percebe que a  fotografia não vai além de um pálido esboço daquilo que você vivenciou durante sua caminhada pela areia da praia. E mesmo recorrendo a toda a galeria de filtros do Instagram a foto continua pobre e você começa a cogitar a hipótese de comprar (verbo maldito!) uma câmera nova que faça jus as imagens registradas em sua memória.

Mas antes de sair por aí torrando seu suado dinheirinho em uma câmera nova que – segundo a propaganda do fabricante – irá resolver todos os seus problemas e mais alguns, sente-se para receber esta triste notícia: Câmera nenhuma na face da Terra é capaz de registrar outra coisa do que a luz refletida pelos objetos para os quais foi apontada. E é só e somente isso que qualquer câmera é capaz de fazer.

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Por outro lado nosso cérebro trabalha de maneira bem mais complexa. As imagens que construímos do mundo ao nosso redor são montadas em nossa mente não só pelas informações captadas por nossos olhos, mas também por todos nossos outros sentidos, além de vivências, memórias e sentimentos. Todo esse conjunto sensorial trabalha em sinergia fornecendo os tijolinhos usados na construção daquilo que nossa mente só torna visível dentro de cada um de nós. E mesmo nossos olhos não são tão eficientes assim na formação de imagens: Tirando uma pequena área do centro de nosso campo de visão, todo o complexo quadro que enxergamos é mais baseado em suposições criadas por nosso cérebro do que por “dados coletados” por nosso mecanismo óptico. Mágicos e ilusionistas sabem disso a séculos e nos deixam maravilhados ao criarem armadilhas em que nossos pobres cérebros caem como patinhos.

E se a formação das imagens que percebemos é resultado de uma complexa coleta de dados vindos de todos os sentidos e processadas com base em nossas memórias e sentimentos, então mesmo quando tiramos a visão dessa equação ainda é possível preencher as informações necessárias para que nossas mentes criem uma imagem do que está ao nosso redor com base nos demais sentidos. Na prática funciona assim:

Tive anos atrás um gato vesgo chamado Clarence. Ele tinha a cabeça e o rabo escuros, bem como duas grandes manchas arredondadas no dorso e o restante do corpo branco. As vezes eu ficava lendo na varanda e Clarence vinha deitar ao meu lado no sol. Me divertia fechando os olhos e deslizando minha mão sobre seu pelo sentindo a diferença de temperatura entre o pelo claro e as manchas escuras que absorviam mais calor. Era bem fácil perceber o padrão da pelagem apenas pela variação da temperatura. Experimente em casa fazer algumas imagens de olhos vendados e você verá que seus demais sentidos podem fornecer uma percepção bem rica do que está ao seu redor.

Foi baseado nessa constatação de que percebemos imagens através de todos os nossos sentidos que comecei a dar corpo a oficina “Imagens dos Sentidos”.

E apesar do medo aprendi muito com essa minha primeira turma de alunos:

Descobri, por exemplo, que smartphones são perfeitos para serem usados pelos deficientes visuais para fotografar, pois programas de orientação por voz facilitam bastante o acesso e controle da câmera. Um software para Iphone chamado “Voice Over” em especial chamou bastante minha atenção. Ele não só fornece instruções audíveis para a regulagem da câmera, mas também orienta o enquadramento e até mesmo a posterior edição das imagens informando ao usuário se as fotos exibidas na galeria, estão tremidas, desfocadas ou com problemas de exposição.

O próximo passo será imprimir as imagens em algum sistema tridimensional para que seus autores possam também apreciar seus trabalhos. Isso pode ser feito através de impressoras 3D, impressoras para Braille ou mesmo através de cópias fotográficas tradicionais com os contornos das formas pontilhadas com uma agulha.

Agradeço aos meus alunos pelo aprendizado que me proporcionaram e por terem mandado o medo do escuro para longe de mim.




Sobre o Autor:

Fotojornalista com trabalhos publicados em alguns dos principais jornais e revistas nacionais, tais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Istoé, entre outros.

Atualmente dirige a Agência Fotográfica Lunapress e também é docente do SENAC lecionando fotografia na unidade Jundiaí.

Colabora com diversos bancos de imagens internacionais com destaque para a iStockphotos e a Getty Image para os quais fornece principalmente imagens sobre a América Latina.

Fotografou para diversos veículos institucionais e é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de fotografia em “hight-speed” adotada pela Faculdade de Engenharia de Minas da USP para registrar o comportamento de partículas em reatores de flotação.

Imagens da América do Sul

Imagens do Brasil