Posts Tagged ‘Fotojornalismo

28
Jul
16

Como se Proteger de Gás Lacrimogêneo

Desde as manifestações de 2013 os fotojornalistas estão tomando consciência da importância do uso de EPIs, mas por ser uma preocupação relativamente recente, ainda há muita desinformação e conceitos errados circulando por aí, como por exemplo o uso de vinagre como antídoto contra os efeitos do gás lacrimogêneo.

Mas afinal o que é esse tal de lacrimogêneo? Quais os seus efeitos e como se proteger efetivamente da sua ação?

_DSC5493Fernando Fernandes/ iStock

Na verdade existem dois tipos de gás: O CN e o CS. Ambos com efeitos muito parecidos, porém o CS é mais forte, embora se disperse mais rapidamente. Na prática os meios de proteção são os mesmos para as duas variações.

O gás – seja ele CS ou CN – é hidrossolúvel e é ativado em contado com as mucosas úmidas dos olhos, nariz e garganta, bem como pela pele suada ou molhada. Seus efeitos vão além das lágrimas e irritação podendo ocorrer:

– Ardência dos olhos com vermelhidão e lacrimejamento constante;

– Sensação de sufocamento;

– Tosse;

– Dor de cabeça;

– Irritação na garganta;

– Dificuldade de respirar;

– Sensação de queimadura na pele devido a reação do gás em contato com o suor e as lágrimas;

– Náuseas e vômito.

Como se proteger? A defesa mais eficaz é o uso de respiradores (máscaras) com filtros de carvão ativo que sejam voltados para uso contra vapores químicos (em especial a amônia), como por exemplo, o multigases 6006 da 3M. A linha 6000 tem cartuchos duplos em seus respiradores o que na prática é bem mais eficiente se você tiver que correr usando o respirador. Esses respiradores podem ser facilmente encontrados em lojas de equipamentos de segurança (EPI) e o conjunto de máscara e filtros sai por cerca de 100 Reais. Dicas: Guarde sua máscara montada com os cartuchos dentro de um saco plástico fechado para prolongar a vida útil dos filtros. Treine colocar o respirador com a respiração presa e de olhos fechados e deixe-o em local acessível durante o evento do qual estiver participando. Prefira as máscaras com bocal de silicone mais duráveis e confortáveis e teste antes da compra para verificar a vedação em seu rosto, especialmente se como eu, você usa barba!

_RGB5845.jpgLembre-se de que o uso do filtro correto é fundamental! Respiradores com proteção para partículas, como as máscaras de pintura, não oferecem proteção alguma. Outro mito, como mencionado no início deste texto, é o vinagre. O gás é alcalino e o ácido do vinagre em uma concentração de 5% pode neutralizar seus efeitos, porém seu uso é apenas indicado para aliviar irritações severas na pele caso a pessoa tenha sito exposta a concentrações muito elevadas de gás, o que não é comum. O vinagre não oferece proteção efetiva contra o gás inalado.

Foi pego de surpresa sem óculos e respirador? Corra afastando-se do local de preferência com os braços abertos e contra o vento. Só lave as áreas afetadas se dispor de água corrente em abundância, apenas molhar as áreas afetadas só irá agravar os sintomas. Troque de roupa assim que possível (aliás é uma boa ideia levar uma camiseta extra na sua bolsa) e guarde as roupas contaminadas em um saco plástico fechado para que não contaminem outras roupas ou objetos.

Os sintomas do gás normalmente desaparecem ou diminuem significadamente após a vítima voltar a respirar ar puro e passar por uma lavagem. Se após a exposição persistir algum sintoma – em especial a dificuldade de respirar – procure imediatamente suporte médico. As vezes será necessário se afastar da zona de conflito para solicitar o serviço de resgate, já que por diretriz de segurança, equipes de paramédicos não prestam socorro em locais de risco. Informe-se junto ao SAMU ou Corpo de Bombeiros e tenha sempre um plano de evacuação antes de iniciar a cobertura em uma zona de risco.

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08
Ago
12

Pintando com Luz

A foto abaixo foi feita em uma aldeia Xavante próxima a Serra do Roncador no norte do Mato Grosso.  Diariamente, após o por do sol, os homens da aldeia se reúnem no pátio central para discutir os últimos acontecimentos e as questões relacionadas à comunidade. Essa reunião chamada de “Warã” também acontece pouco antes do nascer do sol para definir as atividades do dia.

Eventualmente a Warã é seguida de uma roda de canto com a participação também das mulheres, adolescentes e crianças. Como tudo na cultura Xavante a dança é uma experiência forte e registrar a sua intensidade foi um desafio.

Tecnicamente as condições eram bem desfavoráveis: O sol já havia se posto, não havia luar, nem outra fonte de iluminação alternativa por perto. A dança é realizada em total escuridão em um espaço amplo e vazio.

Utilizar um flash estava completamente fora de questão: Sua luz iria incomodar os participantes e interferir de forma negativa na cena, além de provavelmente gerar um efeito duro e pouco natural.

A saída foi utilizar uma técnica conhecida como “Light Painting” que pode ser traduzida como “Pintar com Luz”. Para isso foi utilizado um tripé (aquele acessório grande e trambolhudo que muitas vezes a gente tem preguiça de carregar, mas que salva o dia mais do que se imagina), uma objetiva fixa de 20mm e uma pequena lanterna de mão.

Os índios estão acostumados com o uso de lanternas então a sua luz não era um incomodo. Deixei a câmera posicionada no tripé com o foco manual já pré estabelecido e fui participar da dança para ajudar a quebrar o gelo. Durante uma pausa aproveitei para sair da roda deixando um espaço aberto em frente a câmera de modo que fosse possível mostrar o seu interior oferecendo uma sensação de maior intimidade ao espectador.

A opção por uma exposição bem longa foi para garantir o registro das estrelas e das nuvens no céu que reforçam a dramaticidade e intensidade da imagem. Com movimentos rápidos feitos com a lanterna apontada para os participantes da roda durante uns 4 ou 6 segundos foi possível garantir o registro das pessoas de forma razoavelmente nítida.

A imagem da roda foi registrada nesses poucos segundos de exposição à luz da lanterna. O restante do tempo serviu para registrar o céu enquanto a roda permanecia na escuridão. Podemos então considerar que há duas exposições nessa imagem: Uma para o céu e outra para as pessoas na roda.

Assim foi possível registrar um momento cotidiano da aldeia com um mínimo de interferência.

A seguir os dados EXIF da imagem:

  • Câmera: Nikon D700
  • Modo: Manual
  • Objetiva: 20mm f2.8
  • Abertura: 2.8
  • Tempo de exposição: 30 segundos
  • Iso: 1250
27
Jul
11

Como montar um orçamento fotográfico

Uma das dúvidas mais freqüentes para quem está começando a encarar a fotografia como uma profissão é como cobrar pelo seu trabalho. Afinal de contas quanto vale o trabalho de um fotógrafo?

Um dos caminhos mais usuais para se estabelecer um valor de trabalho é simplesmente dar uma olhada nos preços praticados pela concorrência e diminuir um pouquinho esse valor na intenção de torná-lo mais atrativo para o cliente. Isso acaba acarretando uma “guerra para baixo” que prejudica a todos. Ok… Uma das funções da concorrência é justamente criar um patamar de preços, mas o ideal é que isso seja feito através da eficiência e não no corte indiscriminado dos lucros, pois o resultado disso é apenas um: Tem muito fotógrafo por aí pagando para trabalhar…

Então como elaborar um orçamento realista? O primeiro passo para saber quanto cobrar pelo trabalho é saber quanto custa esse trabalho para você. Então mãos à obra para determinar quanto você gasta por mês para poder trabalhar:

Custos fixos e custos variáveis:

Podemos agrupar nossos custos em dois grandes blocos: Fixos e variáveis. No primeiro grupo estão aqueles que você tem que desembolsar todo mês independente do volume do seu trabalho. Alguns exemplos:

– Aluguel (Se você tem um estúdio ou escritório)

– Internet

– INSS (Contribuição Previdenciária)

– Tarifas bancárias

-Seguros (Imóvel, veículo e equipamento)

– Faxineira

Já os custos variáveis são aqueles que são alterados pelo volume de trabalho, como por exemplo:

– Energia Elétrica

– Telefonia

– Combustível (Se você utiliza seu veículo para atender seus clientes)

– Manutenção

– Insumos (papel para impressora, fundos fotográficos, etc.)

– Impostos (ISS, imposto de renda, etc.)

Para estabelecer e conhecer de forma realista os seus custos é preciso ter a disciplina de criar um livro caixa e anotar religiosamente os seus gastos. Isso não é uma coisa complicada: Para começar basta uma simples planilha eletrônica, que geralmente pode ser importada ou incorporada para um programa mais complexo, caso você venha a adotar algum no futuro.

O ideal é que você avalie os seus custos ao longo do ciclo de um ano para estabelecer uma projeção realista. Mas um período de 3 meses  já nos dá uma idéia razoável de quanto custa nosso trabalho.

De posse desses dados o passo seguinte é estabelecer o impacto dos custos fixos sobre o seu trabalho. Isso é simples: Basta somar o valor dos seus custos fixos mensais e dividir pelas suas horas de trabalho.

Por exemplo: Se você trabalhar 08 horas por dia durante 22 dias por mês então você trabalha 176 horas mensais. Se os seus custos fixos são de, por exemplo, R$ 3000,00 então o peso desses custos está em torno de R$ 17,00 por hora de trabalho.

08 x 22 = 176

3000 / 176 = 17

Já os custos variáveis precisam de um universo de dados um pouco maior para serem estabelecidos. Mas vamos supor que em 3 meses você realizou um total de 36 trabalhos (numa média de 3 por semana ou 12 por mês) e que esses trabalhos geraram um custo de R$ 1500,00/ mês

Então cada trabalho custou:

1500 / 12 = 125

Cada um dos 12 trabalhos mensais realizados então acrescentou um valor de R$ 125,00 aos seus custos. Como você passa 176 horas por mês a disposição desses trabalhos (atendendo ligações, preparando orçamentos, enviando e-mails, negociando com os clientes, etc…) então você pode diluir esse valor ao longo de todas as suas horas de trabalho:

1500 / 176 = 8,50 (valor arredondado)

Assim somando os seus custos fixos (17) e variáveis (8,50) então a sua hora de trabalho custa R$ 25,50 Em outras palavras é isso o que custa para você trabalhar por hora.

Perceba que:

– Os seus custos fixos diminuem quando você aumenta o número de trabalhos.

– Os seus custos variáveis aumentam com o aumento do número de trabalhos.

Para elaborar um orçamento é necessário calcular quantas das suas horas de trabalho serão destinadas a ele. Inclusive aquelas indiretamente relacionadas. No caso do nosso exemplo, supondo que todos os trabalhos fossem rigorosamente iguais (Por exemplo: Books fotográficos) cada um iria consumir 4,8 horas de trabalho.

Portanto o custo de cada um seria de:

25,50 x 4,8 = 122,40

Mas como muitas vezes os trabalhos envolvem cargas horárias diferentes é importante ter o valor da hora de trabalho sempre em mente para elaborar os orçamentos.

Estabelecidos os custos é hora de estabelecer os lucros:

Se você cobrar, por exemplo, R$ 350,00 para produzir um book então o seu lucro será de:

350 – 122,40 = 227,60

Os 12 trabalhos mensais que você realiza lhe proporcionam então um “salário” de R$ 2731,20 já descontados os impostos que foram diluídos como custos.

Custos dos quais muitas vezes nos esquecemos:

Na hora de estabelecer os seus custos é preciso considerar alguns fatores que muitas vezes nos esquecemos:

  1. Depreciação do equipamento: Câmeras digitais sofrem uma depreciação muito grande e tem uma vida útil relativamente curta. É preciso levar isso em consideração.
  2. Férias: Se você trabalha como autônomo e pretende descansar em algum momento é bom lembrar de computar isso como custo.
  3. 13° Salário: O mesmo princípio das férias deve ser aplicado a esse item. Assim se os seus rendimentos são de R$ 2731,20 a cada um dos 12 meses do ano você deve imbutir R$ 227,60 como custo fixo referente ao seu 13º. Isso não é luxo, principalmente se você se lembrar das contas extras que ocorrem em todo começo de ano como IPVA e IPTU.
  4. Cursos de atualização e formação. A finalidade deles é que você atenda cada vez melhor o seu cliente, então é justo dividir a conta com ele não é mesmo?
  5. Plano de saúde: Você trabalha doente?
  6. Caixa reserva para eventualidades: Uma coisa é certa: Merda sempre acontece!
17
Jun
11

Fotografia Digital Profissional no SENAC

Um convite especial para os meus ex-alunos da região de Jundiaí: Atendendo a pedidos estamos iniciando a primeira turma do curso de fotografia profissional no SENAC. Venham participar e conhecer o nosso estúdio novinho em folha!

31
Maio
11

Fotografia de Palco

A fotografia de palco apresenta alguns desafios próprios: Existe pouca luz e ela costuma mudar rapidamente. Grande parte dos equipamentos de iluminação utilizada em palco produz uma luz dura que resulta em alto contraste e grande saturação de cores.

Bonito para os olhos, mas complicado para a câmera. Além disso, normalmente há uma distância razoável entre o que está acontecendo no palco e o fotógrafo e a mobilidade é limitada.

O equipamento “ideal” para essa situação seria uma tele zoom como a 70-200mm clara (f2.8) e uma câmera full frame com baixa densidade de pixels para diminuir a presença de ruído digital que fatalmente ocorrerá ao utilizarmos ISOs mais elevados para compensar a baixa luminosidade do ambiente.

Mas o “ideal” nem sempre é o que os fotógrafos iniciantes têm a mão no momento de se posicionarem frente a um palco para trabalhar. Normalmente o equipamento disponível é uma câmera de sensor pequeno e uma tele escura de f3.5 ou mais. Contudo é possível conseguir resultados satisfatórios com esse tipo de equipamento, embora o processo seja um pouco mais trabalhoso, especialmente durante a etapa de tratamento das imagens.

 Balé Folclorico de La Paz em apresentação no Teatro Municipal de Sucre na Bolívia

Algumas dicas:

Na hora de fotografar:

  • Escolha um ISO que fique um pouco abaixo do máximo disponível na câmera. Por exemplo: Se a câmera atinge um valor máximo de ISO de 3200 utilizar um valor ente 800 e 1000, se possível , para minimizar a ocorrência de ruído.
  • Uma lente zoom muitas vezes apresenta uma claridade variável. Por exemplo: Uma 70-200mm que seja f3,5-5,6. Isso significa na prática que quanto mais utilizarmos o zoom, mais escura estará a objetiva. A claridade da lente será de 3,5 na posição de 70mm, mas apenas de 5,6 quando em 200mm. Portanto tente se posicionar o mais próximo possível do palco para não ter que solicitar muito do zoom da lente.
  • Sempre que possível utilize um tripé ou monopé para dar estabilidade à câmera. Na falta de um apoio próprio improvise algum, como, por exemplo, o encosto de uma cadeira ou poltrona da platéia.
  • Escolha os momentos em que as pessoas no palco estejam se movendo pouco para prevenir borrões causados pelo movimento (a não ser é claro que você esteja buscando exatamente isso). Lembre-s e de que movimentos amplos do corpo (como um braço descrevendo um círculo no ar) produzem velocidades relativas diferentes. Assim as pontas dos dedos estarão se movendo muito mais rapidamente do que a articulação do ombro. Portanto é bem possível que as mãos apresentem um borrão enquanto o resto do braço apresenta uma definição melhor. Escolha o momento menos crítico para clicar.
  • Se a luz muda rapidamente escolha o modo automático para poder se concentrar melhor na cena e deixar o ajuste de exposição por conta da câmera.
  • A fotometria matricial é feita através da leitura média da luz de todo o quadro da cena. Na maioria das vezes esse modo resolve bem a questão, mas em casos de contraste intenso (como um único spot de luz clara sobre um personagem com o resto do palco escuro) uma leitura de luz pontual será mais precisa.
  • Se a sua câmera apresenta a opção de gerar arquivos em RAW aproveite! Dá um pouquinho mais de trabalho do que o bom e velho JPEG, mas permite um controle bem melhor no tratamento das imagens.

Na hora de tratar as imagens:

  • É comum que a iluminação de palco resulte em imagens com uma saturação exagerada. Ajuste a saturação e também o contraste.
  • Pequenos recortes de enquadramento podem valorizar muito as fotos.
  • Existem diversos plugins voltados para a redução de ruído, além da ferramenta própria do Photoshop para isso. De todos que experimentei achei que o Noiseware Professional da Imagenomic foi a opção mais completa e simples de usar, com um bom resultado final.
14
Set
10

O defeito especial

 Num sábado de tarde eu estava de bobeira na agência criando coragem para começar uma faxina no estúdio quando o Tiago Queiroz do Estadão apareceu na porta com um convite: “Bora fotografar lá no Parque do Trote na Vila Guilherme? Eles reabriram depois de 10 anos fechados”.

As opções eram encarar a faxinosa ou acompanhar o Tiago em um trabalho que ela começou quando o hipódromo da Vila Guilherme, já decadente, foi fechado uma década antes.

Em 2004 teve início um processo de tombamento da área como patrimônio ambiental, cultural e urbano da cidade.  Em 2006 a área do hipódromo foi transformada em parque especialmente pensado para pessoas deficientes e no projeto está previsto inclusive a construção de um centro de recuperação.  Mas por enquanto o parque existe mais no papel do que no mundo real.

Naquele sábado estava acontecendo no local a XIV Festa da Cultura Paulista Tradicional o que prometia um grande cardápio fotográfico para nós. Mas o ponto alto seria uma corrida de demonstração da sociedade de trote. Nessa modalidade os cavalos não são montados, mas conduzidos em uma espécie de charrete e a principal característica é o estilo da marcha do animal (a maioria da raça American Trotte importados da Argentina) onde parece ser mais importante a cadência e o ritmo do animal do que a sua força e velocidade.

Infelizmente quando a corrida de apenas duas voltas foi anunciada já estava anoitecendo e a iluminação capenga e danificada da pista abandonada por anos não prometia ser de grande ajuda.

As condições não eram animadoras: Fotografar um motivo em alta velocidade em uma cena com pouca luz e sem muitas chances de repetir a tomada. Não tem ISO alto e lente clara que resolva! Optei então por assumir que a imagem sairia borrada e decidi utilizar a técnica de panning que consiste em mover a câmera com uma velocidade de obturador baixa no mesmo sentido em que o objeto fotografado se move.

A idéia é que ao mover a câmera junto com o objeto, na verdade o objeto estará parado em relação à câmera o que permite o seu registro com uma nitidez razoável enquanto o fundo (que estará se movendo) gera um desfoque que realça a idéia de velocidade.

Isso é o que costumamos chamar brincando de “defeito especial” que consiste em transformar (ou ao menos tentar transformar!) uma limitação em uma vantagem para valorizar uma imagem tecnicamente difícil de ser realizada.

Ficha da foto:

– Camera: Nikon D-700

– ISO: 3200

– Lente: Nikon 24-85mm f2.8 em 56mm

– Velocidade: 1/20s.

Quem quiser ver as imagens feitas pelo Tiago e conhecer um pouco mais do seu trabalho como fotojornalista visite o blog http://www.cenasdodia.blogspot.com/

Vale à pena!

29
Maio
10

Sobre lentes e linguagem

A lente que você escolhe no momento de fotografar não determina apenas a distância focal ou a profundidade de campo da imagem que será capturada. Mais importante do que isso, determina a sua relação com o objeto fotografado.

De um modo geral quando se trabalha com grande angulares, por exemplo, é necessário que o fotógrafo se aproxime de seu tema e isso gera uma série de implicações: O fotógrafo é obrigado a ter uma interação muito mais profunda com a cena que está registrando e muitas vezes passa a fazer parte dela.

Pessoas presentes na cena registrada fatalmente irão reagir de alguma maneira a uma presença tão íntima do fotógrafo e este deverá ter a sensibilidade necessária para conduzir essa interação para a história que está narrando em sua fotografia. Não existe neutralidade ao se trabalhar com grande angulares ao fotografar pessoas.

Mesmo quando os retratados passam a se comportar de forma mais espontânea, isso significa que houve uma relação de aceitação e confiança entre os dois lados da objetiva.

Procissão de Ramos em San José de Chiquitos – Bolívia: Lente 24mm em f8 com 1/80s. ISSO 400 (Câmera Nikon D700)

A grande profundidade de campo e principalmente a perspectiva exagerada das grande angulares confere à imagem uma dramaticidade que não ocorre em lentes mais longas. Por essa razão essas lentes são as prediletas na linguagem do fotojornalismo clássico onde vale a regra de que se a imagem não ficou boa é porque você não se aproximou o suficiente.

Quando o fotógrafo não está apenas vendo a cena, mas sim participando da mesma, permitindo que todos os seus outros sentidos, além da visão, capturem o momento ele passa a fazer parte da história e não apenas a registrá-la. E isso carrega inúmeras conseqüências pessoais, autorais e mesmo éticas e morais.

No extremo oposto estão as teleobjetivas que permitem ao fotógrafo um certo distanciamento do assunto retratado. O fotógrafo passa a ficar de fora da cena registrada e a aparente imparcialidade dessa posição permite uma maior espontaneidade das pessoas retratadas. O menor ângulo de cobertura e o achatamento dos planos são um convite para explorar os detalhes, isolando fragmentos dentro de uma narrativa maior.

Fiesta Del Gran Poder – La Paz – Bolívia: Lente 135mm em f2.8 com 1/800s. ISO 400 (Câmera Nikon D700)

Se por um lado a teleobjetiva provoca uma certa frieza gerada pelo distanciamento, por outro permite uma rica captura de expressões e ações das quais o fotógrafo não é ator, mas sim espectador.

Sair da cena e afastar-se da história produz um relato menos passional mais alinhado com uma linguagem científica e antropológica, por exemplo. A cena se desenvolve a frente da lente com pouca ou nenhuma interferência do fotógrafo. Mas isso não significa que o fotógrafo não está produzindo uma interferência na narrativa, já que ao determinar quais os fragmentos da cena que serão enquadrados e registrados estará atuando como um filtro sobre a realidade que está documentando.

Independente de sua posição em relação à cena, a colcha de retalhos que compõe os instantes registrados em uma narrativa fotográfica é o resultado autoral dessa narrativa. E como a fotografia não se faz através dos olhos, mas sim do cérebro a bagagem pessoal do autor será refletida através das suas lentes. As lentes nos contam muito sobre a relação do fotógrafo com a cena registrada.

A teleobjetiva diz: “Eu vi” enquanto a grande angular diz: “Eu vivi”.




Sobre o Autor:

Fotojornalista com trabalhos publicados em alguns dos principais jornais e revistas nacionais, tais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Istoé, entre outros.

Atualmente dirige a Agência Fotográfica Lunapress e também é docente do SENAC lecionando fotografia na unidade Jundiaí.

Colabora com diversos bancos de imagens internacionais com destaque para a iStockphotos e a Getty Image para os quais fornece principalmente imagens sobre a América Latina.

Fotografou para diversos veículos institucionais e é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de fotografia em “hight-speed” adotada pela Faculdade de Engenharia de Minas da USP para registrar o comportamento de partículas em reatores de flotação.

Imagens da América do Sul

Imagens do Brasil