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09
Fev
12

A incrível 50mm

As objetivas fotográficas podem ser divididas em dois grandes grupos: As que aproximam os objetos que vemos pelo visor (teles) e as que afastam os objetos vistos (angulares). Mas entre um grupo e outro existe uma objetiva com características únicas: Ela não afasta, nem aproxima as imagens. E como necessita de poucas correções óticas tem uma construção simples, barata e clara. Chamamos essa objetiva de “Normal”.

Mas antes de falarmos das objetivas Normais vamos esclarecer um ponto que costuma gerar algumas confusões: A forma como uma objetiva se comporta está diretamente relacionada ao tamanho do sensor da câmera onde ela é utilizada. Sensores menores necessitam de uma distância focal menor e em sensores maiores é necessária uma distância maior para que a imagem projetada pela objetiva cubra toda a sua área.

Pense em um projetor desses de sala de aula: Se você quiser projetar uma imagem sobre uma tela pequena a distância entre o projetor e a tela não precisa ser muito grande. Mas para projetar a mesma imagem em uma tela maior será necessária uma distância maior não é mesmo? Pois dentro da câmera acontece a mesma coisa: Imagine o sensor como sendo a tela e o projetor como a objetiva.  A distância entre o projetor e a tela (ou entre a objetiva e o sensor) é o que chamamos de distância focal e em fotografia é expressa em milímetros (mm)

Para câmeras analógicas ou digitais com sensor full frame (FX) a distância focal da lente normal é de 50mm. Para as câmeras SLRs com sensores menores (DX) a normal é a objetiva de 35mm.

Observe no gráfico abaixo que se colocarmos uma objetiva de 50mm (normal para FX) em uma câmera de sensor DX ela passará a se comportar como uma pequena tele (o equivalente a uma tele de 85mm no formato FX)

Mas independente de ser uma 35mm ou uma 50mm a Normal possui características únicas que a tornam extremamente interessantes para qualquer fotógrafo:

Preço: Por possuírem uma fórmula ótica relativamente simples as normais são baratas de serem produzidas. Alguns modelos podem ser encontrados na faixa de 350 Reais, mas isso não significa que sejam objetivas de baixa qualidade.

Luminosidade: Normais são objetivas claras por definição. Simplesmente não existe nenhuma outra objetiva com a mesma claridade na mesma faixa de preço. A maioria das Normais apresenta luminosidade de f: 1.8 ou 1.4 o que as torna fantásticas para fotografar em situações de baixa luminosidade.

Na foto acima grupo de Candomblé fotografado em Itanhaém no litoral sul de São Paulo com uma Nikon F4 e objetiva 50mm f:1.8 série D  utilizando filme Provia 100 da Fuji

 

 

Desfoque: Essa grande abertura encontrada nas Normais também gera um desfoque de fundo extremamente agradável. Os melhores desfoques são proporcionados pelas objetivas que possuem 9 paletas no diafragma ou 7 paletas de bordas curvas (como por exemplo a Nikon série G f:1.4)

Na imagem ao lado a atriz Kátia Mantovani fotografada no interior do Mercado Municipal de São Paulo com uma Nikon D700 e objetiva 50mm f:1.8 série D

Nitidez: A maioria das Normais apresenta excelente nitidez em aberturas médias como f:8 ou 11

 

 

 

 

A igreja de Santo Antônio no centro de Caraguatatuba fotografada ao cair da noite com uma Nikon D700 e objetiva 50mm f1:4 série G

Peso: Normais são lentes pequenas e leves que cabem em qualquer cantinho da sua bolsa de equipamento estando sempre à mão. Isso se você conseguir tirá-la da sua câmera depois de experimentar essas pequenas maravilhas.

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29
Maio
10

Sobre lentes e linguagem

A lente que você escolhe no momento de fotografar não determina apenas a distância focal ou a profundidade de campo da imagem que será capturada. Mais importante do que isso, determina a sua relação com o objeto fotografado.

De um modo geral quando se trabalha com grande angulares, por exemplo, é necessário que o fotógrafo se aproxime de seu tema e isso gera uma série de implicações: O fotógrafo é obrigado a ter uma interação muito mais profunda com a cena que está registrando e muitas vezes passa a fazer parte dela.

Pessoas presentes na cena registrada fatalmente irão reagir de alguma maneira a uma presença tão íntima do fotógrafo e este deverá ter a sensibilidade necessária para conduzir essa interação para a história que está narrando em sua fotografia. Não existe neutralidade ao se trabalhar com grande angulares ao fotografar pessoas.

Mesmo quando os retratados passam a se comportar de forma mais espontânea, isso significa que houve uma relação de aceitação e confiança entre os dois lados da objetiva.

Procissão de Ramos em San José de Chiquitos – Bolívia: Lente 24mm em f8 com 1/80s. ISSO 400 (Câmera Nikon D700)

A grande profundidade de campo e principalmente a perspectiva exagerada das grande angulares confere à imagem uma dramaticidade que não ocorre em lentes mais longas. Por essa razão essas lentes são as prediletas na linguagem do fotojornalismo clássico onde vale a regra de que se a imagem não ficou boa é porque você não se aproximou o suficiente.

Quando o fotógrafo não está apenas vendo a cena, mas sim participando da mesma, permitindo que todos os seus outros sentidos, além da visão, capturem o momento ele passa a fazer parte da história e não apenas a registrá-la. E isso carrega inúmeras conseqüências pessoais, autorais e mesmo éticas e morais.

No extremo oposto estão as teleobjetivas que permitem ao fotógrafo um certo distanciamento do assunto retratado. O fotógrafo passa a ficar de fora da cena registrada e a aparente imparcialidade dessa posição permite uma maior espontaneidade das pessoas retratadas. O menor ângulo de cobertura e o achatamento dos planos são um convite para explorar os detalhes, isolando fragmentos dentro de uma narrativa maior.

Fiesta Del Gran Poder – La Paz – Bolívia: Lente 135mm em f2.8 com 1/800s. ISO 400 (Câmera Nikon D700)

Se por um lado a teleobjetiva provoca uma certa frieza gerada pelo distanciamento, por outro permite uma rica captura de expressões e ações das quais o fotógrafo não é ator, mas sim espectador.

Sair da cena e afastar-se da história produz um relato menos passional mais alinhado com uma linguagem científica e antropológica, por exemplo. A cena se desenvolve a frente da lente com pouca ou nenhuma interferência do fotógrafo. Mas isso não significa que o fotógrafo não está produzindo uma interferência na narrativa, já que ao determinar quais os fragmentos da cena que serão enquadrados e registrados estará atuando como um filtro sobre a realidade que está documentando.

Independente de sua posição em relação à cena, a colcha de retalhos que compõe os instantes registrados em uma narrativa fotográfica é o resultado autoral dessa narrativa. E como a fotografia não se faz através dos olhos, mas sim do cérebro a bagagem pessoal do autor será refletida através das suas lentes. As lentes nos contam muito sobre a relação do fotógrafo com a cena registrada.

A teleobjetiva diz: “Eu vi” enquanto a grande angular diz: “Eu vivi”.




Sobre o Autor:

Fotojornalista com trabalhos publicados em alguns dos principais jornais e revistas nacionais, tais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Istoé, entre outros.

Atualmente dirige a Agência Fotográfica Lunapress e também é docente do SENAC lecionando fotografia na unidade Jundiaí.

Colabora com diversos bancos de imagens internacionais com destaque para a iStockphotos e a Getty Image para os quais fornece principalmente imagens sobre a América Latina.

Fotografou para diversos veículos institucionais e é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de fotografia em “hight-speed” adotada pela Faculdade de Engenharia de Minas da USP para registrar o comportamento de partículas em reatores de flotação.

Imagens da América do Sul

Imagens do Brasil