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29
Maio
10

Sobre lentes e linguagem

A lente que você escolhe no momento de fotografar não determina apenas a distância focal ou a profundidade de campo da imagem que será capturada. Mais importante do que isso, determina a sua relação com o objeto fotografado.

De um modo geral quando se trabalha com grande angulares, por exemplo, é necessário que o fotógrafo se aproxime de seu tema e isso gera uma série de implicações: O fotógrafo é obrigado a ter uma interação muito mais profunda com a cena que está registrando e muitas vezes passa a fazer parte dela.

Pessoas presentes na cena registrada fatalmente irão reagir de alguma maneira a uma presença tão íntima do fotógrafo e este deverá ter a sensibilidade necessária para conduzir essa interação para a história que está narrando em sua fotografia. Não existe neutralidade ao se trabalhar com grande angulares ao fotografar pessoas.

Mesmo quando os retratados passam a se comportar de forma mais espontânea, isso significa que houve uma relação de aceitação e confiança entre os dois lados da objetiva.

Procissão de Ramos em San José de Chiquitos – Bolívia: Lente 24mm em f8 com 1/80s. ISSO 400 (Câmera Nikon D700)

A grande profundidade de campo e principalmente a perspectiva exagerada das grande angulares confere à imagem uma dramaticidade que não ocorre em lentes mais longas. Por essa razão essas lentes são as prediletas na linguagem do fotojornalismo clássico onde vale a regra de que se a imagem não ficou boa é porque você não se aproximou o suficiente.

Quando o fotógrafo não está apenas vendo a cena, mas sim participando da mesma, permitindo que todos os seus outros sentidos, além da visão, capturem o momento ele passa a fazer parte da história e não apenas a registrá-la. E isso carrega inúmeras conseqüências pessoais, autorais e mesmo éticas e morais.

No extremo oposto estão as teleobjetivas que permitem ao fotógrafo um certo distanciamento do assunto retratado. O fotógrafo passa a ficar de fora da cena registrada e a aparente imparcialidade dessa posição permite uma maior espontaneidade das pessoas retratadas. O menor ângulo de cobertura e o achatamento dos planos são um convite para explorar os detalhes, isolando fragmentos dentro de uma narrativa maior.

Fiesta Del Gran Poder – La Paz – Bolívia: Lente 135mm em f2.8 com 1/800s. ISO 400 (Câmera Nikon D700)

Se por um lado a teleobjetiva provoca uma certa frieza gerada pelo distanciamento, por outro permite uma rica captura de expressões e ações das quais o fotógrafo não é ator, mas sim espectador.

Sair da cena e afastar-se da história produz um relato menos passional mais alinhado com uma linguagem científica e antropológica, por exemplo. A cena se desenvolve a frente da lente com pouca ou nenhuma interferência do fotógrafo. Mas isso não significa que o fotógrafo não está produzindo uma interferência na narrativa, já que ao determinar quais os fragmentos da cena que serão enquadrados e registrados estará atuando como um filtro sobre a realidade que está documentando.

Independente de sua posição em relação à cena, a colcha de retalhos que compõe os instantes registrados em uma narrativa fotográfica é o resultado autoral dessa narrativa. E como a fotografia não se faz através dos olhos, mas sim do cérebro a bagagem pessoal do autor será refletida através das suas lentes. As lentes nos contam muito sobre a relação do fotógrafo com a cena registrada.

A teleobjetiva diz: “Eu vi” enquanto a grande angular diz: “Eu vivi”.

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Sobre o Autor:

Fotojornalista com trabalhos publicados em alguns dos principais jornais e revistas nacionais, tais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Istoé, entre outros.

Atualmente dirige a Agência Fotográfica Lunapress e também é docente do SENAC lecionando fotografia na unidade Jundiaí.

Colabora com diversos bancos de imagens internacionais com destaque para a iStockphotos e a Getty Image para os quais fornece principalmente imagens sobre a América Latina.

Fotografou para diversos veículos institucionais e é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de fotografia em “hight-speed” adotada pela Faculdade de Engenharia de Minas da USP para registrar o comportamento de partículas em reatores de flotação.

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